quarta-feira, 3 de junho de 2015

escalmorrado

Nunca escrevo muito sobre o que faço pelo simples facto de ser aborrecido. O meu trabalho é entediante, até já pensei sugerir a palavra tédio como sinónimo para a minha ocupação, sem exagero, só de pensar dá sono. Por isso se chegaram até aqui sem bocejar, não garanto que continuem a sentir o mesmo.
Aviso feito, vamos à explicação concreta: Sou um espantalho! É isso, o meu ofício é espantar, por isso chego ao fim do dia cheio de dores nos pés, são horas seguidas parado no mesmo sítio, quase estático, quer faça chuva, quer faça sol. Mas o pior nem é isso, consigo lidar bem com a imobilidade, aliás descobri que até tinha muito talento para essa tarefa, não fosse eu nascido e criado no Alentejo. Mas como eu estava a dizer, o pior não é passar o dia em pé sem me mexer, não, o pior é a passarada, esses seres insurrectos que me atormentam, escoando em segundos a pouca paciência que me resta. É sem dúvida uma ocupação que exige extrema perseverança, paletes de constância, muita firmeza e acima de tudo, excesso de tolerância. Também ajuda ter pouco amor a pássaros, no entanto isso acaba por ser ultrapassado a partir do momento em que se é constantemente acirrado pelas criaturas. Tá um gajo plantado ali ao alto, esticado pelas orelhas e chega um bando de gralhas-de-nuca-cinzenta, bicho maldito, sem medo de nada, vão-se aproximando atrevidas, carregadas de compras, piscam os olhos sem pudor, grasnar metálico, algumas ousam pousar as garras e eu aguento, sem me mexer. Mas há pior, muito pior, o voo pausado, rente ao solo nas planícies e nos planaltos do Tartaranhão-caçador pode ser uma verdadeira dor de cabeça, tenho de estar sempre atento, mas imóvel, o que não ajuda muito. Passam a rapinar dissimulados na paisagem, exímios caçadores bem armados, não há espantalho que não os tema. Há ainda os Peneiros com as suas penas sarapintadas, “peneiram” o ar em busca de problemas, mas com esses posso eu bem, é mais bazófia que outra coisa.
Claro que o meu ofício não é somente acinético, para espantar é preciso possuir qualidades assustadoras, algum músculo, mas sobretudo altura e uma carantonha. Não sou excepcionalmente feio, o que tem dificultado bastante o meu desempenho. Quando chega o tempo das andorinhas-das-chaminés, com as suas longas pe(r)nas caudais, as criaturas não se sentem nem um pouco afectadas com a minha altura, ou o meu porte sério e indiferente, esvoaçam rápidas à minha volta, sedutoras e joviais, desleixo-me e retribuo um sorriso, fico manso como um pinheiro e lá vem a minha dona, afasta-as da horta, dá-me uma reprimenda.

E é basicamente isto, muitas dores nos pés, porcaria de pássaro e um tédio de morte. 


4 comentários:

  1. Que tédio!!! Se ao menos fosses um alien e deitasses fogo pelos olhos, sempre ias adiantando o jantar, uns passaritos grelhados, para as gralhas o ponto seria o de... torresmo

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  2. "Manel" essa tua capacidade para fantasiar não é de todo enfadonha...

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    1. cá entre nós "B", se nã fosse o pescoço, a cabeça já tinha partido...

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