sábado, 13 de junho de 2015

aquilatar


Quando comprei a viagem só reparei nas taxas extras da bagagem de porão. Como sou muito poupado e irritam-me os extras em letras pequenas, nem notei que havia outras opções que a companhia disponibilizava numa fonte reduzida, dois parágrafos mais abaixo. Bastava um click lá no quadradinho e podia ter embarcado num “voo para maiores de 21, com oferta de duas bebidas” e também “assistentes de bordo saídas do catálogo de lingerie da Victoria’s Secret”. Como não seleccionei nenhuma destas opções, a companhia colocou-me num voo normal de duas horas e vinte minutos com destino a Paris, rodeado de pessoas pequenas com dentição de leite.

Fui dos últimos a entrar no avião, a pista brilhava sob o borriço, havia fila nas escadas e um atraso de dez minutos. Calhou-me o lugar no corredor e ao princípio até fiquei agradado, permitia-me esticar as pernas depois de um dia cansativo. Por cima do meu lugar já não havia espaço para a bagagem, a alternativa era coloca-la sob o assento da frente, mas nem cheguei a tentar, três lugares adiante um passageiro teve a amabilidade de zipar os seus pertences para que eu pudesse arrumar a minha mochila, mesmo ao lado de uma pequena mala verde com um dinossauro sorridente. O seu proprietário dormitava ao colo da mãe, parecia inofensivo.

Rapidamente os assistentes de bordo fecharam os compartimentos da bagagem e sentaram os mais agitados nos respectivos lugares, o atraso arrastava-se para os vinte minutos e enquanto o piloto manobrava o avião até à pista, executaram os procedimentos de segurança e emergência. Ao meu lado viajava um casal espanhol em lua-de-mel, falavam espantosamente baixo e estiveram entretidos a partilhar o guia de Paris, até ela adormecer encostada ao ombro dele. No início achei estranha a disposição dos lugares, ela ia sentada entre os dois e não junto à janela, mas assim que o avião começou a ganhar velocidade, apercebi-me que era medo que a mantinha naquela posição, nem sequer conseguia olhar pela janela à medida que o avião se separava da sua sombra e as casas tornavam-se indistintas na paisagem. Ao atravessar as nuvens um poço de ar abanou as sessenta toneladas de fuselagem, causando a sensação momentânea de ausência de peso, a rapariga quase se agarrou ao meu braço, depois sorriu-me procurando alimentar-se da minha tranquilidade. Nessa altura ainda não tinha reparado na mini-saia que usava com um segundo par de meias até aos joelhos, só quando comecei a escrever este relato, é que as suas pernas entraram no meu campo de visão e quase de lá não saíram, não fosse a gigantesca bunda que a assistente de bordo francesa manteve voltada para mim enquanto distribuía bebidas e comezainas pelos passageiros esfomeados. Sem exagero, parecia um pneu traseiro de um tractor prestes a esmagar-me.


Enfiei os headphones e tentei dormir um pouco, os meus ouvidos estalavam e doíam com a variação de pressão, tinha esquecido de comprar chicletes para aliviar o zumbido. Fechei os olhos e ajustei a música no volume máximo que o meu mp3 permitia, faltavam quase duas horas de voo quando o tabuleiro acoplado ao meu assento começou a descer e subir como se o tentassem arrancar do sítio. Depois parou durante uns minutos. Mantive os olhos fechados, os dentes cerrados e os punhos preparados para os espetar em qualquer direcção. O tabuleiro voltou a descer, bateu três vezes contra o encosto e um assistente de bordo apareceu antes que eu arrancasse a cabeça a alguém. Por essa altura apercebi-me que estava rodeado de pequenas criaturas mal cheirosas que guinchavam, surgindo de todos os lados para me atormentarem agora que o avião já estava no ar e era impossível despejá-los.

Tenho sérias dúvidas sobre a identidade destas coisas, em tempos vi um filme em que algo idêntico acontecia com uns seres que se transformavam quando eram alimentados depois da meia noite. Da esquerda voavam toalhetes e talheres de plástico, mais à frente a criatura adormecida tinha por fim acordado e berrava em plenos pulmões, o pai exasperado, limpava o jantar líquido da cria que vertera da mala com o dinossauro, a qual ficara estrategicamente colocada ao lado da minha. Nem me mexi. Já só pensava no cheiro a leite azedo que me acompanharia pelas ruas de Paris, quando senti uma pequena pressão na lombar. Primeiro optei por ignorar, abri "A dança da morte” junto ao marcador e comecei a ler. Depois uma segunda pressão um pouco mais forte, alguém sentado no banco de trás tentava irritar-me. Respirei fundo, a pressão agora era constante, enterrando o banco nos meus rins sem misericórdia. Em desespero virei-me para trás e dei de caras com uma pirralha com cara de anjo, menos de meio metro, pernas esticadas até à saliência do assento, muito satisfeita com o resultado. 





2 comentários:

  1. ahahah São uns anjinhos... quando a dormir mas, há uma altura em que dormem pouco e começa a treta da conversa "coitadinho do menino" a cada travessura aceite com o sorriso idiota dos progenitores, que não sabendo educar, acham que os outros têm que levar com eles. Boa viahem Manel eheheheh

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