quarta-feira, 21 de outubro de 2015

ravasco


… ou ensaios para dias felizes.

Mirei-me no pequeno espelho torto colocado por cima do pio, já não o usava há algum tempo e a primeira reacção foi de ver um estranho. Não era tão ridículo quanto imaginara, parecia que tinha um guaxinim morto com um pompom no topo da cabeça, mas era quente e cobria as orelhas. Passei a mão pela barba para garantir que era mesmo eu que ali se mirava, algumas pontas brancas reflectiram a luz fraca, confirmando a passagem dos anos. Depois experimentei erguer os lados da boca numa aproximação de sorriso, mas o resultado ficou aquém das expectativas.
Andava a ver se deixava crescer a par com a barba um lado optimista, mas não sei se por falta de chuva ou do solo franco-argiloso com pouca profundidade, a coisa não estava a pegar. E foi então que sem contar descobri a Biedronka (joaninha) na Stanisława Dubois, onde comprei duas garrafas de monte da ravasqueira, quinze zlótis cada, na esperança de ficar catorze graus e meio mais próximo de casa.
Mas voltemos ao início, ou à explicação do guaxinim morto. Na sexta-feira depois do jantar, (eram umas seis da tarde, cinco em Lisboa e na Madeira), Jochen e Alicja apareceram de surpresa carregados de presentes e com muitas saudades para matar. A mim calhou-me um gorro, o tal que parece um guaxinim falso e sem vida, mas até me assenta decentemente e as orelhas ficam protegidas do cieiro. E agora onde entra o ravasco? Vamos com calma que ainda estou ébrio.
Esbulhado da amizade de Jochen por largos meses, esqueci de como nos dávamos bem, mas agora parecia mais adulto, ajuizado, excluindo-se das disputas alcoólicas que eu e Marek travávamos. Falava em casar, ter filhos, empréstimo bancário, horário das oito às cinco, mas Alicja parecia a mesma, inconsequente e em busca de um coelho branco com colete.
Então andava a ensaiar para dias felizes e domingo veio com céu carregado, mesmo assim Izabela encheu um cesto com as iguarias da tia e surripiou os copos altos do armário. Com pouca pompa estendemos uma manta junto ao lago e abri o tinto que escoou pelas gargantas como chuva em terra árida.

O ravasco: Juro que não tive culpa. Depois da farta comezaina bem regada a baixo custo, a minha costela veio ao de cima, bateu-me uma profunda moleza, enterrei o gorro até tapar os olhos e adormeci meio fora, meio dentro da manta. Jochen tinha avistado um barco abandonado preso nos ramos e Marek foi com ele saber se tinha fundo. Ora, na manta estava eu (o ravasco) meio dentro meio fora, e as duas irmãs, Alicja inconsequente e Izabela, a musa despromovida. Ressalva, eu não tive culpa, estava a dormitar naquela extremidade de papo para o ar, quando as duas irmãs se aproximaram, pairando como nuvens sobre a minha cabeça. O primeiro beijo foi inconsequente e sabia a taninos e frutos vermelhos, tentei levantar a viseira mas ela segurou-me sem forçar pelos punhos. O segundo beijo sabia quase ao mesmo, um pouco mais doce, mais hesitante, suspenso por um risinho. E continuaram até perder a conta e a língua atravessar o lábio e se encontrarem, ora uma, ora a outra, sem resistir entre meio dentro e meio fora da manta. 




ravasco: Homem devasso; libertino

6 comentários:

  1. Epá!!! Épá!!! mas a Alicja não é namorada do Joshen, o teu amigo do coração?
    Já não se pode confiar em ninguém
    Com a desculpa de não teres culpa... tá bem tá!!!

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    1. quem é que deixa a namorada na manta com um ravasco ali ao lado?

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  2. Agora diz que é do ravasco...
    Tá bem tá, como diz a tua madrinha.:)
    Meio fora meio dentro...da manta claro está!
    Excelente Manel.

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    1. eu avisei... meio fora meio dentro... mas pode ter sido do tinto! :D

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  3. Vou ler outra vez. Só para confirmar de quem é a culpa afinal !
    :)
    (Muito bem escrito)

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    1. nã estragues as vistas com porcarias desta natureza... é unânime que a culpa foi do tinto! :) Qual é o nome daquela cena para as ressacas?

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