segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

depósito I

Estranhei as formas que se depositavam no tanque mais profundo, pareciam quadris de frango desproporcionais, despedaçados do resto da ave repousando no azul celeste da pastilha. Quando a sombra negra com mais de cinco metros deslizou sem agitar as águas, afastei-me receoso do rebordo.

Acordei seco no pequeno sofá da João, ainda não havia indícios de sol. Lembro-me que Junho começara muito quente, rico em fenómenos estranhos como uma impressionante queda de granizo acompanhada por uma das piores trovoadas de sempre. Sentei-me no escuro, distinguindo os contornos geométricos da mobília no percurso que tomaria até ao lava-loiça, acumulando vontade para matar a sede. Antes que me decidisse a maçaneta do quarto rodou, e um vulto nu percorreu a sala a direito em direcção ao que era suposto ser uma cozinha, detendo-se em frente do frigorífico. Apesar do cabelo curto e da largura dos ombros, caminhava como uma fêmea, rodando na saliência do osso ilíaco. A luz fria iluminou-lhe a totalidade do corpo, com excepção do rosto. Inclinou-se alcançando uma garrafa de água gasificada, os seios eram pequenos e rijos. Permaneci imóvel na esperança de passar despercebido, imiscuído na penumbra, contive cada músculo enquanto ela bebia encostada à porta escancarada, abrindo ligeiramente as pernas para entre elas sentir a garrafa fria. Inconscientemente engoli em seco, sequioso e açorado, quebrando o silêncio. Voltou a cabeça na direcção do sofá soltando um grito de horror.

Tacteei pela parede à procura do interruptor, desviando-me dos objectos que a moça de cabelo curto encontrava, e com exímia pontaria lançava no escuro. Disparada do quarto saía a João, de raquete em punho, quase levara com um limão na tola, não se lembrando que horas antes me abrira a porta para ir cair no sofá dela durante uma ou duas noites.

A namorada da João já estava a dormir quando cheguei. Não havia quartos livres, a capital estava ao rubro, infernalmente apinhada de turistas de chinelas, precisava dormir pelo menos umas horas, tomar um banho e na manhã seguinte ter-me decentemente apresentável para uma entrevista de emprego. O estreito e exíguo sofá da João era um luxo comparado com o terminal de camionetas.

Não ficamos amigos. Além de vários cacos e diversas mossas nas paredes, recusou-se a partilhar o tecto, mesmo que fosse só por duas ou três noites. Para a João era a oportunidade de ter uns dias de liberdade e respirar fora da relação, como um cetáceo à tona da água, e ao mesmo tempo, a chantagem perfeita para me requisitar como acompanhante no casamento dos primos.


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