terça-feira, 12 de novembro de 2013

obsidiana

Expusera-se demasiado. Era aquele atmosfera estranha que lhe enchia os pulmões e o esvaziava de experiência, alimentando como achas a cegueira moral, ignorando os signos na bifurcação, soando vazios e ocos os fonemas estrangeiros.

Não se lembrava de a ter conhecido, era tudo novo, acabara de chegar, mas Alicja jurava a pés juntos que os havia apresentado. Como era possível não se lembrar daquele olhar de vidro vulcânico? Esquecido também do nome, reservou-se na vergonha de um cumprimento simples, ocupando-se das cebolas cortadas grosseiramente. No avesso da medida, ela mostrava interesse no que refogava no tacho, dissimulando o desejo no forasteiro, contentando-se com a lacónica explicação da confecção do molho.
Foi o último a sentar-se à mesa, no extremo oposto onde ela estava. Só os olhares podiam tocar-se, e tocaram-se várias vezes, magnetizado pelas obsidianas reluzentes que enchiam os seus olhos amendoados. Se ao menos estivessem mais próximos, pensava, à distância de estender um braço ou a perna por baixo da mesa. Que tolice, nunca se atreveria mesmo que a distância o permitisse, a cerveja toldara-lhe o discernimento, só podia.

Arrumados os pratos, sacudida a mesa, permaneceram sentados guardando mais ou menos os mesmos sítios, salvo uma ou outra permuta consentida. Os dois continuavam nas orlas mais distantes, orbitando atentos por rotas diferentes. Em inglês! Alguém ordenou, cessando de uma só vez as conversas que decorriam em paralelo. Toda a atenção ficou nela concentrada, corando-lhe a face morena maculada de sinais. Ele mais que ninguém ansiava saber o que teria para dizer, até então permanecera na total ignorância sobre o que discutiam naquele hemisfério remoto, falando sempre em húngaro.
Os homens têm duas vezes mais lugar no cérebro para sentimentos sexuais, afirmou, a mente masculina é menos activa, enquanto as mulheres pensam constantemente, é por isso que os homens estão sempre à procura de sensações excitantes… Depois voltou-se para ele num tom meio irritado e perguntou sem qualquer pudor, usando-o como exemplo. Por acaso lembras-te do meu nome? Ou da cor dos meus olhos? Ou ficaste embeiçado a olhar para o peito da minha amiga Tatiana quando fomos apresentados? Ele engoliu em seco, mas num misto de satisfação e alívio, sorriu. Era realmente grande o peito da Tatiana, respondeu, mas agora entendo como era possível não me lembrar do teu nome, ou da singularidade das tuas íris tão escuras que se unem numa única esfera negra às pupilas… Ela corou ainda mais, alguém disse para arranjarem um quarto.

Na mesa estariam sentados não mais que uma dúzia, roçando braços com braços, em bancos desirmanados, emprestados ou improvisados. A sala era espaçosa, cabendo nela a cozinha e uma mesa pintada de azul. Por cima do frigorífico tocava um rádio, não era um slow, mas dançavam juntos. Quando se inclinou no fogão para espiar o jantar, parecera-lhe mais baixa do que ali diante de si, sentindo o seu corpo mover-se quase líquido nos seus braços, volátil e extremamente inflamável.

Não seria mais que uma armadilha, premeditadamente tecida para o capturar, sem qualquer possibilidade de lhe resistir.

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