domingo, 30 de junho de 2013

matriarcado

A mesa encheu-se rapidamente de odores e variedade, habituada a dias em que só lhe colocavam pela metade uma toalha, naquele dia de festa quase pagã foi aberta no seu esplendor antigo, do fundo da gaveta usaram-se os ricos panos bordados, e acotovelados sentaram-se com água a crescer na boca. A família crescera para lá da mesa, à cabeceira o membro mais velho podia esbracejar à vontade, aqui a tradição mantinha-se e do lado direito acomodavam-se os homens, do esquerdo as mulheres, estrategicamente próximas da cozinha. Fazia-se uma adenda com a mesa de campismo para os mais novos e solteiros. A última a sentar era a avó, ela é que decidia onde cada elemento assentava as nádegas, e também era ela que servia a comida. Quando se divorciou, a matriarca encheu-lhe o prato e disse, tu ficas ali, e lá foi ele despromovido para a segunda mesa. Os machos adultos não gostaram da decisão, entreolharam-se, era o primogénito mas ninguém se atreveu a abrir a boca a não ser para saborear umas deliciosas migas de porco preto.

O divórcio era palavra nova, ouvia-se nas novelas e em filmes estrangeiros, ali não havia dessas modernices, até entrar de rompante pela porta da frente, e sem preparação para lidar com palavras novas, remeteram-se ao silêncio. Ilude-se quem pensa que aqui mandam as calças, o avental tem a palavra final! E nem que seja a custo de muitos sacrifícios, premeia-se o casamento e a prole, a continuidade dos genes, cada um com o seu papel atribuído no grupo, todos participam como uma unidade, a base onde a sociedade assenta as nádegas. Pelo menos assim tem sido até agora, sem família não éramos mais que uma espécie de primatas sem cauda e pouco pêlo.

Para quem acredita em Adão e Eva, e serpentes falantes, isto que vou dizer daqui para a frente não faz qualquer sentido, mas imaginem que as condições atmosféricas do planeta sofreram uma alteração e este primata vê-se obrigado a encontrar outras fontes de alimento, a migrar como vários animais ainda o fazem, provocando transformações físicas que se perpetuaram durante milhões de anos. Mas como é que o homem conseguiu sobreviver sem possuir grandes meios de defesa?
" A união de forças e a acção comum da tribo… A tolerância recíproca entre os machos adultos e a ausência de ciúmes constituiu a primeira condição para que se pudessem formar esses grupos numerosos e estáveis, em cujo seio, unicamente, podia operar-se a transformação do animal em homem.“

Só agora nos estamos a aproximar da resposta à questão que me colocaram recentemente sobre as mudanças que se verificam na sociedade, o suposto “encaixe” do homem no seio familiar versos o afastamento das mulheres das questões maternais. Mas será que estamos a mudar?

Isto começou com o agrupamento de machos adultos e respectivas fêmeas, esqueçam a monogamia, aliás o ser humano experimentou de tudo, inclusive a poliandria (uma mulher possuir mais do que um marido ao mesmo tempo), desconhecida entre os animais.

Curiosamente é o conceito de propriedade que vai alterar todo o percurso da humanidade. Os utensílios, campos de cultivo e animais que um individuo acumulava ao longo da vida, deixava de herança aos seus descendentes, por direito materno, isto é, a descendência só se contava por linha feminina.
“Á medida que as riquezas iam aumentando, davam ao homem uma posição mais importante que a da mulher na família, e, por outro lado, faziam com que nascesse nele a ideia de valer-se desta vantagem para modificar, em proveito de seus filhos, a ordem da herança estabelecida. Mas isso não se poderia fazer enquanto permanecesse vigente a filiação segundo o direito materno. Esse direito teria que ser abolido…”

“O desmoronamento do direito materno é a grande derrota histórica do sexo feminino em todo o mundo. O homem apoderou-se também da direcção da casa; a mulher viu-se degradada, convertida em servidora, em escrava da luxúria do homem, em simples instrumento de reprodução. Essa baixa condição da mulher, manifestada sobretudo entre os gregos dos tempos heróicos e, ainda mais, entre os dos tempos clássicos, tem sido gradualmente retocada, dissimulada e, em certos lugares, até revestida de formas de maior suavidade, mas de maneira alguma suprimida."

Será que estamos perante o ressurgir do direito materno? Afinal são as mulheres que decidem a continuidade da espécie. No entanto é a propriedade que volta a estar em jogo e não a capacidade de procriação. E a monogamia? Inventada pelas mulheres (pelos homens é que não foi) fartas de serem abusadas e oprimidas pela tribo e depois na idade média pelos senhores da terra, procurando a libertação no matrimónio, tem algum fundamento nos dias de hoje? Se são independentes economicamente, podem alterar a cor do cabelo e o tamanho do peito, também podem decidir com quem copular, ou estou errado? Ou será tudo isto mais um revestimento característico de sociedades supostamente evoluídas?

Uma coisa é certa, na bíblia apenas dois animais falavam, a serpente e o jumento!

Extratos de "A origem da família, da propriedade e do estado" F. Engels

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