domingo, 28 de julho de 2013

voltaren

A claridade exterior reflectia em todas as superfícies envidraçadas, o letreiro pendia em aberto e empurrei a porta, sendo anunciado por uma campainha comedida. A cascata de ar condicionado abençoou-me, cobrindo-me de um manto fresco com cheiro a remédio.
Não havia ninguém, nem à espera de vez, nem por detrás do balcão estéril. Nas prateleiras de vidro e inox acumulava-se uma infinidade de caixas e caixinhas, boiões, poções e cremes milagrosos, elixires e chás, mezinhas e pomadas para a cura de todos os males…
-Pois não? Disse, surgindo do ar sem o bater oco dos passos pelo laminado, interrompendo a pequena incursão estupefacta que fazia pela diversidade exposta nas vitrinas. 

O nome do medicamente até se alojara fácil de pronunciar sob a abóbada palatina, mas não antevi a morena de olhos grandes e sorriso cheio de graça por detrás do balcão. Comecei pelo bom dia às seis da tarde, ela olhou o relógio eriçando as sobrancelhas, imaginado que acabara de sair da cama e que a noite anterior fora de farra até madrugada, mas evitou corrigir-me. Foi o primeiro de vários equívocos. Depois fiquei a admirar a composição invulgar das suas maçãs do rosto, à espera que se fizesse subitamente luz, e o nome surgisse como estava escrito na embalagem.
-Esqueci-me do nome, como era fácil não apontei. Justifiquei-me tropeçando nas palavras.
-Isso está sempre a acontecer, não se preocupe. Se me disser para o que é, ou se são comprimidos, xarope, creme…
Não estava à espera daquele tom de voz límpido e tão feminino mas sem ser frágil ou rachado, como se nela tivessem conseguido fundir a beleza e a voz da Elīna Garanča, vá... uma versão morena da mezzo-soprano.
-Era uma pomada para o joelho, ando a tomar uns comprimidos, mas disseram-me que a pomada era mais indicada.
-Ah! Deve ser voltaren… Num rodopio ligeiro voltou as costas, e lá estava ele mesmo atrás dela, como é que não o vi?
-Temos dois, um tem mais princípio activo…
- Pode ser o que tem mais.
-É só?
-Acho que sim… só uma curiosidade, como é que entrou sem fazer barulho?
Com facilidade elevou o pé quase ao balcão e mostrou-me as sapatilhas.
-São próprias para gatunos,encomendei pela net.
-Para surpreender gatunos ou correr atrás deles?
Ela riu divertida pelo absurdo da conversa naquele cenário sério e ambientado artificialmente.
-Primeiro surpreendo-o, depois é possível que tenha de correr, mas ai não têm hipóteses, principalmente aqueles que procuram voltaren para uma dor no joelho…
-Nã tem de se preocupar comigo, neste momento tou desempregado, mesmo para gatuno tá complicado.
-Pensei que estava de baixa médica. Uma maleita no joelho pode ser considerada doença profissional, no seu caso…
-Como é que sabe que o voltarem é para mim?
-Disse que andava a tomar uns comprimidos.
- Pois disse, mas podia estar a inventar uma história para me considerar mais frágil.
-É só? Voltou a perguntar, agora sem sorriso. Ainda pensei pedir-lhe que cantasse um pouco, 

“Belle nuit, ô nuit d’amour
Souris à nos ivresses
Nuit plus douce que le jour
Ô,belle nuit d’amour!” 

-Gostava de a convidar para um café, mas algo me diz que não tenho qualquer hipótese.
- Pelo menos a sua intuição funciona na perfeição. Quer o recibo em que nome?
- Pode ser em Intuição de gatuno manco!
Ainda começou a teclar mecanicamente, e o sorriso voltava... doce sorriso. Aqueles lábios desarmavam-me.
-Não tomo café com gatunos.
-Mesmo desempregado?
-Pior ainda!
-Que pena! Gastei a última dose de coragem que me sobrava para a convidar, e em vão… até um dia destes. E encaminhei-me para a porta, não sei se arrependido ou envergonhado. E cheirava tão bem!
-Espere! Gritou, e voltei-me já com a mão no puxador da porta, na esperança que a minha confissão a tivesse feito mudar de ideias e afinal abrisse pelo menos uma excepção na vida, de tomar café com um gatuno.
–Esqueceu-se da pomada!


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