quinta-feira, 20 de junho de 2013

pejo

Antes de abrir os olhos estranhou o perfume dissolvido 
no muco que recobre a membrana pituitária. 
Um ramalhete floral quente, evidenciando-se o 
neroli da Tunísia, destilado das flores da árvore de laranja amarga. Havia ainda outro odor, menos doce, 
transpirado intensamente horas antes, conservado 
na sua essência de feromonas e secreções. 
Não estava sozinho, conseguia sentir o respirar 
cadenciado a menos de dois palmos da sua cara. 

Finalmente sabia o que era sexo descomprometido, 
e sem se atrever a abrir os olhos, tentou recordar-se 
da próxima etapa do guia do cavalheiro por uma noite, 
que tinha lido naquela revista masculina. Até ali tudo correra às mil maravilhas, apresentados numa festa de amigos, perderam a inibição entre copos de vodka tónico onde o gelo mal derretia. Escondeu a ansiedade, fingiu não estar interessado e só teve de esperar ser conduzido para a cama. 
Lembrava-se claramente que não devia ficar para o pequeno-almoço, mas esquecera por completo as 25 linhas que enalteciam o sexo matinal. 

Cautelosamente deslizou pelo lençol até à borda do colchão, tacteando no escuro junto ao chão pelas roupas espalhadas. Só quando se refugiou no banheiro deu conta que não tinha os boxers, mas não podia voltar ao quarto para os procurar, e se ela acordava? Mas também não os podia deixar, e se ela era comprometida? Estariam no fundo da cama, enrolados no próprio lençol? Vestiu-se e enquanto decidia se voltava ou não, pegou na escova do copo e pôs-se a escovar os dentes.

Foi a familiaridade da cerda e o sabor do dentífrico que o baralharam, quando a devolveu molhada ao copo vazio. Aquela era a sua escova, e os azulejos que recobriam as paredes também eram os seus, bem como o roupão em turco escuro pendurado atrás da porta. Despiu-se envergonhado, voltando em silêncio à cama. 


-Onde foste? Perguntou, numa voz rouca mas divertida, provocando-lhe um ligeiro sobressalto. 

-Aliviar a bexiga. Mentiu ele, tentando ser educado.

-E tinhas de te vestir e depois voltar a despir? Reclamou ela, num tom jocoso. 

Sentiu que tinha tropeçado em alguma norma, um iniciante num jogo cheio de regras e comportamentos arriscados que não dominava, como era possível não se lembrar que estavam em sua casa? E se ela ficara, isso queria dizer que era algo mais que uma noite? E então cometeu o segundo erro. 

-queres ir jantar no próximo sábado?


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