quinta-feira, 27 de abril de 2017

шишка*

Não sonhava desde que vi o meu pai morto numa laje negra. Estava numa larga divisão de uma casa centenária que albergava muitas pessoas sentadas, nem todas contra a parede como era o meu caso. O rapaz diante de mim, que partilhava o canapé de três lugares com uma senhora mais velha, perguntou se eu escrevia. Disse-lhe que escrevia ocasionalmente, tinha total domínio sobre as vogais, mas as consoantes às vezes falhavam por serem muitas. A rapariga ao meu lado riu alto, dirigindo a atenção dos presentes para a nossa conversa. Isto é um assunto sério, disse o jovem com ar ameaçador, estendendo-me um inquérito. A rapariga ao meu lado recuperou a seriedade e o silêncio avançou pela sala à medida que os papéis eram distribuídos do centro para os cantos. Alguém no extremo direito da sala ditava instruções, mas eu mal conseguia ouvir o que dizia. A rapariga ao meu lado virara-me as costas e preenchia exaustivamente os espaços em branco. Reparei então que apesar de jovem, usava roupas antigas, um longo vestido com rendas, do tempo dos reis e das princesas. O rapaz estava todo vestido de preto e não voltara a olhar para mim, levantando ocasionalmente a cabeça em direcção da voz feminina que vinha da extremidade da sala. A velha a seu lado também usava um desses vestidos com rendas até aos pés e uma grande peruca dourada, óculos na ponta do nariz. A parte da sala que cabia no meu campo de visão, era decorada com faustosos e pesados gobelins, canapés e bergeres de todas as cores e feitios. Ao fundo, no extremo, toda a parede era rasgada em janelas altas e estreitas, de caixilhos simétricos e alinhados com as faias do jardim A ala direita era interrompida por um grande biombo florido, todo trabalhado em caracóis sem fim. Era desse ponto que a voz da mulher vinha, mas pelo percurso quebrava-se, tornava-se esbatida, perdendo conteúdo, força, desaguava nos meus ouvidos em fragmentos como “crocodilo”, “Anne Frank”, “poeira”, “arremedo”, “pinha*”. 







14 comentários:

  1. Manel, valeu a pena esperar por ti e apanhar este escrito tão bom. Não me parece que te falhem as vogais.
    É raríssimo sonhar a dormir, até porque durmo muito pouco, por não conseguir.

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    1. já dormi melhor, era muito bom nisso, mesmo muito bom :)

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  2. Ai Manel, que alegria ver-te de volta.
    É que isto da blogosfera, sem ti, fica um pouco para o desenxabido.
    Do tipo: vira-o-disco-e-toca-o-mesmo.
    Tu fazes-me pensar, e eu gosto de escritos com sonhos e mistérios dentro.
    Neste momento a minha grande inquietação é não encontrar caminho para a luz que ilumine esta dúvida que há muito tempo se instalou na minha mente e, hoje, se agudizou.
    Que mistério, insondável, estará por detrás dos títulos dos teus posts? (isto escreve-se assim ou com apóstrofe? Agora até tenho medo destas palavras inglesadas, mas, com o dito, poderias ler «do post», e não é.)
    Em relação ao que ia dizendo, tanto escreves em polaco, como em russo ou noutra língua qualquer, menos ou raramente, em português.
    Resumindo e concluindo que isto já vai longo e corro o risco de não me passares cartão, como vem sendo costume.

    Isso da pinha, é aquela que trazemos em cima dos ombros ou a outra que cai do pinheiro em cima da primeira, e, às vezes, nos leva à amnésia?

    Desculpa este arrazoado, Manel. No fundo, acho que estou a tentar desviar a minha atenção de um pressentimento triste, em relação à tua ausência.

    Um beijo, Manel Mau-Tempo
    (até me dói, chamar-te assim.)

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    1. oh Janita! mas tu ainda ligas ao que digo? os títulos são uma mania, sempre uma única palavra sem repetição... até tenho um excel para nã me baralhar todo... este é em ucraniano, e lê-se shesca, mas se fores ver tenho vários em português, ainda são a maioria :)
      beijos, Janita Bom-tempo

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  3. Já andava com saudades de um bom sonho :)

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  4. maravilhoso :)
    já tinha saudades de te ler, M M-T

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  5. Parece que os sonhos te trazem à vida e te fazem escrever com mestria. Tão bonito Manel :)

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    1. é como vir à tona para encher os pulmões :)
      obrigado Maria

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  6. Muito interessante a alusão, como que sussurrada, a Anne Frank e a tudo o que ela evoca: o holocausto, o nazismo, a morte negra, a brutal crueldade humana, a vontade de ser jornalista, escritora, o gosto pela leitura, o enconderijo, em que, por vezes, muitos se refugiam, esperando que ninguém os reconheça e denuncie.
    O resto, bem o resto, é o que repousa na “poeira” da memória, nos sinónimos de “arremedo”, no significado metafórico da “pinha”, na simbologia poderosa do “crocodilo”.

    Pois é...razão tinha o poeta que um dia escreveu que “isto anda tudo ligado”… :)

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    1. Eu que não sou Freud ou Jung ponho-me a teorizar sobre a interpretação da tua vida onírica. Ai valha-me Deus, valha! Rsrsss...
      Já te disse para não ligares ao que escrevo, que acho que é o que tu fazes e muito bem feito!
      Toma lá uma piscadela de olho…:)

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    2. às vezes o dia aparece em fragmentos durante o sonho, transformado em formas estranhas, mas nem sempre... este pareceu-me sem qualquer sentido...

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