segunda-feira, 27 de março de 2017

desistir

Finto a página em branco. Escrevo que a noite já caiu e depois apago. Não consigo descrever a cor daquela hora. Precisava de uma noite amena propícia a enredos simples, mas nem a noite está amena, nem os enredos são simples. Repito a mesma música até as notas saírem pelos poros, na esperança que elas expulsem palavras alojadas entre as camadas. Fecho os olhos e imagino-a deitada num sonho. Toda a repetição é como uma oração. Volto ao início e tento acalmar a violência dos punhos lutando contra o ar, cansando a raiva, atirando contra o tapete a frustração, mas nem assim as palavras pousam nos ombros e ditam ao ouvido o que vem a seguir. Se desistir, pouco me resta.  


39 comentários:

  1. Mas, nem penses nisso!!!
    Dou-te tamanha tareia, que nem te chego a tocar.
    Todos os que escrevem, dizem o mesmo - estou num período seco, a inspiração não aparece - porque serias tu diferente?
    Acalma-te, e espera pelo sol, logo as palavras chegam a saltitar vestidas de cores garridas.
    Os sonhos, leves e ternurentos, também estão à espera que o tempo aqueça.

    Beijocas afilhado mailindo quinté
    :-))

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    1. nã posso considerar isto escrita, é apenas um passatempo, um jogo de palavras :) uma tentativa de divertimento... mas gosto, pra lá de tanto e fico aborrecido quando nã consigo.
      beijos super-madrinha

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  2. “Archaic Torso of Apollo”
    by Rainer Maria Rilke
    translated by Stephen Mitchell


    We cannot know his legendary head
    with eyes like ripening fruit. And yet his torso
    is still suffused with brilliance from inside,
    like a lamp, in which his gaze, now turned to low,

    gleams in all its power. Otherwise
    the curved breast could not dazzle you so, nor could
    a smile run through the placid hips and thighs
    to that dark center where procreation flared.

    Otherwise this stone would seem defaced
    beneath the translucent cascade of the shoulders
    and would not glisten like a wild beast’s fur:

    would not, from all the borders of itself,
    burst like a star: for here there is no place
    that does not see you. You must change your life.

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    1. isso sim, é escrever... dar vida a pedras que em tempos também pareceram conter vida...

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  3. Paul Auster, conta que esteve mais de um ano sem conseguir escrever um parágrafo, uma frase sequer. Um dia acordou e, como por milagre, as ideias surgiram em catadupa.
    Forçar a mente a inventar palavras sem as sentir é horrível.
    Tem calma, relaxa, não te deixes ir abaixo, ok?
    Se hoje fintaste a página em branco, já foi escrever, não foi.? E adorei, muito.

    Um abraço, Manel.

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    1. nã iria tão longe, isto nã é escrever... são somente recortes, jogos de palavras, tentativas de divertir o espectador... por isso nã havia de ter momentos destes. nã gosto disto. parece que o mundo parou nestes últimos dias, nem sei o que fiz do tempo...
      abraço Janita

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  4. não desistas, vai pelo que diz a dona fernanda. tivesse eu dado ouvidos...

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    1. vai dar uma corrida à volta do quarteirão...

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    2. fiz o que disseste, mas nã apanhei a coragem, nem nas curvas por dentro...

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  5. Manel, entendo que devemos fazer o que nos faz sentido, o que nos faz sentir bem. Já basta o que fazemos por obrigação e que não contribui para o nosso bem-estar.

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    1. :) faz sentido, mas nem sempre a regra se aplicará... há situações em que se desafia a má sensação, troca-se o bem-estar por um mal-estar momentâneo que pode resultar num melhor estar, mas sem garantias que resulte... mania de nunca estar satisfeito.

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  6. Põe tudo o que és na mais pequena coisa que faças*. Um polvo não desiste assim...
    Bom dia, Manel. :)

    *Fernando Pessoa

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    1. Tu e o Fernando têm razão :) Bom dia Té.

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    2. Eu aldrabei um bocado, Manel :)
      'Para ser grande, sê inteiro: nada
      Teu exagera ou exclui.
      Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
      No mínimo que fazes.
      Assim em cada lago a lua toda
      Brilha, porque alta vive.'
      Fernando Pessoa

      Quanto ao polvo não retiro sequer um ponto :)



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    3. gosto do Fernando e de ler o Mau-Tempo também.
      (juro que não vou comentar mais este post. agora, lá em cima...)

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  7. secura de tudo, não? próximo de algum deserto que teima em não mostrar oásis? dá vontade de desisti, dá, sim. a luta para o evitar é, ás vezes, cruenta. quando se ganha, é um bem estar merecido.
    abraço, Manel. boa semana.

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    1. só imagino o oásis... é mesmo isso, dou por mim a imaginar o oásis, a sonhar com o oásis, sem me aperceber que vou morrendo à sede no deserto...
      beijo Mia, boa semana

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  8. Elas pousarão, M-MT, não tenho qualquer dúvida disso.

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    1. vou encher os ombros com cola, a ver se quando pousarem, nã se libertam :)

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  9. eu tb sinto isso, mas relativamente ao desenho, não ás palavras. ás vezes é difícil enfrentar a "folha Branca". mas depois de passar essa fase é maravilhoso...depois volta...mas com muita insistência no trabalho árduo, a coisa passa,
    anonima

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    1. a sensação é de ter perdido uma parte... nã sei se volta a crescer

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  10. Afinal a página não ficou em branco e há por aqui muitas palavras suspensas. Calma. Deixa-as pousar

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    1. achas que montar umas armadilhas resolve a coisa?

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  11. Persistência ;)
    Às vezes, precisamos de muitas tentativas. O importante é não desistir.

    Beijo!

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    1. tudo são tentativas :) isso é certo
      beijo Helena

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  12. anda, dá-me a mão, vamos ali ver o campo de flores amarelas, e talvez logo me possas ler a história que escreveste entre as pausas do vento. :)

    de ti, as palavras nunca vão embora, apenas viajam debaixo da pele, menino inverno. :)

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    1. é sempre difícil ver partir o inverno, mesmo que seja um assombro de beleza a tua chegada :)

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  13. E no entanto, arrancaste-lhes esta maravilha.

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    1. maravilha? aposto o que quiseres que fazes melhor com menos...

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  14. Se desistires pouco resta a muitos do que aqui passam. Que a minha vontade de desistir de certas coisas da minha vida me trouxesse uma consequência análoga à tua falta de inspiração. Escreves tão bem, caraças!

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    1. tu és uma querida, mas exageras bué! :)
      obrigado

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  15. É a chamada síndrome da folha branca.
    A angústia, a frustação, a raiva, são as maiores inimigas da criatividade.
    Talvez o melhor seja tentar seguir Lobo Antunes que afirma: "Não tenho medo nenhum da folha em branco. Nunca me angustiou que ela, eventualmente, tivesse de permanecer nesse estado."

    E apesar de tudo, muito bonito o teu texto!
    Bem inspirado estavas para usar a falta de inspiração como inspiração tão bem inspirada…

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  16. Desculpa voltar, mas esqueci-me de te dizer que sei que nunca irás desistir.
    Fica um sorriso...

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    1. :) sei mais de folhas brancas que permaneceram nesse estado do que ele, tenho a certeza!
      beijos Misty e obrigado

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