domingo, 12 de março de 2017

leucocrata

II

Às vezes penso que o tempo antes daquela madrugada em que acordei na praia, nunca existiu. Era como se tivesse nascido naquele dia, expelido do ventre do mar com quarenta anos, usando apenas umas trusses made in china. Mas onde é que eu estava? Sim, já me recordo, tinha caminhado cerca de três horas pelo areal até à foz do rio, mas nada era como no dia anterior. Não havia casas, nem prédios, estradas, pontes, pessoas. As margens do rio eram aligeiradas no encontro com o mar, arenosas, mas escarpadas, graníticas para o seu interior. Em tudo parecia o mesmo sítio, só que noutro tempo, talvez passado ou futuro. Mas isto sou eu a embelezar o momento, porque naquela manhã de agosto no princípio do mundo, estava completamente cego de sede e não pensava muito. Caminhei o mais rápido que conseguia pela margem do rio até o areal ser substituído por seixos e rochas desgastadas, marcadas pelos diferentes níveis do rio. Desci com cuidado, mas a água era tão cristalina que não me apercebi que o fundo era bem mais fundo e quando o pé não se apoiou na rocha seguinte, caí na água com estrondo. Parecia acabada de descongelar, mas o sabor era algo indescritível, não tinha memória de alguma vez ter bebido assim uma água, mas podia ser da sede excessiva ou da secura da língua. De imediato senti o alívio de todas as dores, a pele que queimara levemente ao sol, recuperou totalmente e as forças voltaram aos membros como por milagre. Completamente saciado, estendi-me numa rocha ao sol, contemplando a margem norte onde era suposto existir a invicta. A escarpa granítica era atravessada por alguns riachos, quedas de água, que desapareciam no volume imenso do rio, brilhando intensamente como fios de prata. Um movimento fora da água fez-me desviar rapidamente o olhar. Não queria acreditar, mas peixes corpulentos saltavam no ar, contra a corrente do rio. Agora que olhava com atenção, via que outros peixes, mais pequenos, se aproximavam nas águas baixas, inspeccionando com cautela a minha sombra. Aqueles peixes não eram exactamente iguais aos que tinha visto na montra do restaurante, pressupus que fossem tainhas, embora nunca tivesse visto tainhas a saltarem à tona. Pus-me de pé e experimentei gritar bem alto “está ai alguém?”; “olá”; “socorro”; “tenho fome”. Mas a única resposta que obtive foi um eco incompleto. Ocorreu-me então que talvez me tivesse inscrito num daqueles programas de sobrevivência em ilhas desertas, mas se calhar tinha batido com a cabeça em alguma árvore e não me lembrava de nada, só daquela noite do restaurante e da mama atrevida que espreitava fora do soutien. Apalpei a cara e a cabeça à procura de uma contusão que atestasse essa novíssima teoria, mas não encontrei nada. Se estava num programa de sobrevivência, era suposto haver câmaras a filmarem, e senti algum embaraço por ali estar de cuecas. Isso era outra coisa que me intrigava, porquê que não tinha mais roupa. Resolvi então escalar a vertente sul até ao ponto mais alto, e daí poderia ter uma perspectiva mais ampliada do sítio onde me encontrava. A subida não foi fácil, descalço e praticamente nu, mas valeu-me o facto de ter encontrado algumas pinhas com pinhões muito mirrados e algumas silvas com amoras silvestres pouco maduras. Foi o primeiro de muitos festins. 

16 comentários:

  1. espero não ter que esperar mais uma semana pela continuação...
    estás bom?

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    1. sou péssimo nisto... repara que mal sai do sítio. e tu estás boa?

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  2. Acho que a coisa promete, se mete festins eu digo presente.
    Vamos lá ver se aparece alguém. A mim já não me vais ver.
    Esperei tanto da outra vez...

    Beijos festivos, Manel.

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    1. até aparecer alguém ainda vai levar tempo... desculpa a espera, isto nã está fácil.
      beijos, Janita.

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  3. Então Manel? Um episódio inteiro para subir uma escarpa? Andas a faltar aos treinos :)

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    1. A escrever por este método, vais acabar a ser convidado a escrever novelas, com enredos que se contam em trinta minutos mas, que escritas, rendem duas estações do ano, às vezes até mais :-))

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  4. Afilhado, já me sentei, não demores com outro episódio :-))

    Beijo

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  5. Pinhões e amoras. É saudável! :)

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  6. Eram bravas? As amoras?

    (mal consigo esperar pelo próximo capítulo) :)

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  7. Respostas
    1. já desenvolvi, mas temo que o avanço nã seja por ai além...

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