sexta-feira, 3 de abril de 2015

naʼiidzeeł

Uma alameda larga desembocava no areal. Não se viam automóveis, no entanto caminhava pelo passeio. O céu era brilhante, azul claro que feria os olhos e que se intensificava junto do mar. O som da música e das pessoas misturava-se com os guinchos das aves marinhas. Havia muita gente, a maior parte permanecia em grupos com aspecto homogéneo, sentados nos medos no limite dos pinheiros. Outras caminhavam em sentido contrário, todas me olhavam com um estranho receio, baixando a cabeça quando se aproximavam. Notei que devíamos pertencer a tribos diferentes, não sei qual era o meu aspecto, mas bastava a distância de uns cinco metros para baixarem a cabeça e desandarem da minha frente.
Um grupo desordeiro de dois homens e uma mulher vinha em sentido contrário, falavam alto em grunhos imperceptíveis e enquanto se afastavam da orla marítima, provocavam os outros transeuntes com insultos e gestos obscenos. Observei-os atentamente à medida que nos aproximávamos, traziam as cabeças rapadas e os rostos riscados na vertical a vermelho. A rapariga que parecia a mais aguerrida, foi a primeira a calar-se quando me viu, os dois homens ladearam-na largando os paus que empunhavam, passando por mim em silêncio, olhando-me de soslaio. Uns metros mais à frente retomaram os insultos, conseguia ouvi-los, olhei para trás e vi que se afastavam rapidamente.
Continuei em direcção à luz, a praia era um pequeno areal que a preia-mar ia engolindo, onde se encavalitavam guarda-sóis e corpos da cor da areia. Um gradeamento acompanhava a orla marítima para norte, que terminava abrupta numa escarpa. Então o som do mar elevou-se acima de tudo, abafando a música e as gaivotas, seguindo-se um estranho e prolongado silêncio. O céu cobriu-se com uma gigantesca onda, tornando o sol vermelho, estático. Agarrei-me instintivamente ao gradeamento esperando a força avassaladora e impossível da ressaca. Olhei à volta, uma mulher de cabelos compridos sorria de uma janela do outro lado da vedação, gritei-lhe que se segurasse, mas ela não ouviu. Pensei abrigar-me no mesmo edifício, talvez a parede de tijolo resistisse ao impacto. Tinha quase a certeza que não ia suportar a força da onda, agarrado a uma cerca de arame galvanizado, e mesmo que aguentasse sem ceder, o pior era o recuo, o retorno da onda ao mar, arrastando consigo tudo o que tinha engolindo pelo caminho.
Já estava pronto para morrer, mas mesmo assim larguei o gradeamento e corri para o edifício de tijolo.


naʼiidzeeł : sonho na língua navaja..

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