segunda-feira, 20 de abril de 2015

descontinuado

Disse-te uma estupidez qualquer a respeito das palmeiras estarem mortas, o carro voava pela nacional, estava fresco mas mesmo assim levavas o vidro aberto e rias despenteada. Talvez tenha esgotado contigo o que restava de felicidade. Naqueles dias não exigíamos muito, bastava a tabuleta de passagem anunciando uma terra estranha, e a meio da tarde procurávamos um sítio para pedir duas imperiais e sacudir a poeira. Paramos à saída de Imaginário e fotografaste o início. O sol queimava-te a pele, venerava-te estranha de copo na mão, lábios frios amargos do lúpulo. No teu decote caiam suspiros, os olhos dos outros não acostumados ao eclipse e por onde nos guiavas, havia sempre uma estrada, uma rota sem mapa mais perto do mar. Não o víamos, mas ele ali estava, rebentando na densa escuridão, sacudindo a crina indiferente à nossa presença. Foi de comum acordo, nenhuma palavra atirada na fronteira, deitados no leito húmido e movediço, mal abrigado do vento, sons abafados pelo rugido, telhado de corpos celestes. Descobri de ti ínfimas partes, células expostas ardendo invisíveis a quem passasse por acaso, disse-te para não contares as estrelas, cinco camadas acima da pele. O teu cheiro vertido avulso na areia, estupidamente inebriado e cativo, amei-te no limite da linha de espuma. Foi contigo, tenho a certeza, as últimas reservas de felicidade. 


3 comentários:

  1. Imaginário o pensamento que nos leva a determinar o inicio ou fim do que seja...

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