domingo, 20 de abril de 2014

delinear

Os banhos eram demorados, um cilindro inteiro de água vertia-se por ela abaixo, desamarrando os sonhos emaranhados em chocas no cabelo. Numa névoa de vapor lá saia dando a mão a D. Sebastião, a nuca enrolada numa toalha a cheirar a tabaco, deixava-se cair perpendicular e molhada na cama. Eram cansativos e longos os banhos, acendia um cigarro e ficava a observar os mapas de tinta descascada até a pele secar.
A cama e a água quente não eram suficientes para os dois, sendo raras as manhãs em que lá acordava com ela atravessada e nua. Todos os dias era o mesmo, fumava o primeiro cigarro de estômago vazio, planeando a viagem ao hemisfério sul. Sempre para sul, dizia desenhando uma rota imaginária com o dedo pelo ar, leva-me para o sul. Depois enrolava-se na manta de lã e descalça em pontas, punha a cafeteira de quatro cafés ao lume. Enquanto esperava que a água fervesse, secava o cabelo com a cabeça inclinada entre as pernas, ambas operações levavam exactamente o mesmo tempo, por isso quando desligava o secador, ouvia as últimas gotas subirem do depósito. 
De chávena almoçadeira cheia enfrentava de frente a máquina, posicionava uma folha na prensa e antes de accionar a alavanca de retorno, acendia o segundo cigarro. Já disse noutra altura que ela escrevia só com uma mão, martelando com força as teclas velhas, segurando o vício ao canto do lábio. 
Numa das vezes em que a encontrei ainda no preâmbulo do abandono vinda do banho, tracei-lhe na pele molhada, as curvas de nível do seu mapa topográfico. Nunca segui por aquela estrada a branco, disse olhando uma falha do tecto, mas eu já não ouvia, envolvido no perfume que libertava na saliência do seio, e a língua repetia os mesmos círculos feitos a dedo, sorvendo a humidade, cheirando a yuzu.


Sem comentários:

Enviar um comentário