domingo, 18 de janeiro de 2015

lobo


Os lobos não têm grandes bochechas, não são como os esquilos ou os castores, por isso ficava sempre impressionado quando a minha mãe contava como num sopro o lobo deitara abaixo uma cabana de palha, mais impressionado ainda com o que fazia a seguir à construção de madeira. Imaginava que o seu sopro seria dos mais poderosos à face da terra, o bicho dava um passo atrás, enchia os pulmões e arrasava com tudo. Quando era miúdo já tinham tratado de o exterminar por aqueles lados, nunca vi nenhum em liberdade, só uma vez apareceu uma ovelha ferida e toda a gente começou a gritar lobo. Confesso que mantenho uma ténue esperança de um dia vislumbrar um por entre a mata densa. Naquele tempo, por segurança, as casas eram todas de tijolo e cimento.

A minha mãe não lia de um livro, embora não faltassem lá em casa, ela sabia de cor todas as histórias, e as que não sabia, inventava na medida do meu sono. Às vezes tentava trocar os personagens para confirmar se ainda estava desperto, ou dava uma reviravolta surpreendente no guião, levando-nos de supetão para o “e viveram felizes para sempre”. Mas eu estava atento, reparando nas falhas da história, reclamando as cenas cortadas pelo cansaço. Não adormecia com a facilidade de agora, havia tanta coisa boa para fazer, dormir parecia uma perda de tempo quando o mundo fervilhava com lobos que deitavam casas abaixo, pés de feijão gigantes e impressionantes gatos que usavam botas.

A dos três porcos construtores era das minhas favoritas, a minha mãe fazia o lobo soar assustador quando ameaçava os porcos, soprando na minha cara no escuro do quarto, e depois tinha três vozes distintas para os porcos, uma infantil para o mais novo, descontraído para o do meio e sério para o mais velho. Era uma emoção, mesmo quando já sabia que ia terminar com o lobo desmaiado com falta de ar.

Demorei alguns anos a entender o que era o lobo, foi mais ou menos na altura em que comecei a erguer construções de palha na minha vida. A minha mãe bem avisara, o bicho chegava pela calada e nem sequer batia à porta, astuto, silencioso, enchia os pulmões e num sopro forte arrastava tudo o que não era cimento. Com alguma paciência voltei a erguer as paredes, depois um tecto, de palha que sempre foi mais rápido e muito económico, sobrando-me tempo para coisa nenhuma.

Engraçada esta coisa das histórias, vertem-se da memória sem darmos conta delas, escorregadias lições ocultas de valor incalculável. Naquele tempo era comum, sentados em torno da mesa ou junto do lume, ouvindo o que os mais velhos guardavam nas rugas e escaninhos da memória. Ansiava tomar aquele lugar respeitado, possuir a atenção da plateia enquanto narrava com todos os pormenores, por exemplo aquela vez que entrei no avião errado e atrasei o voo a 250 passageiros, ou daquela outra em que cozi o bacalhau no wc numa passagem de ano, porque chovia a cântaros, mas o que importava era terminar com um final feliz, e nessa parte ainda não lhe tomei o jeito, como vão poder reparar.
Como me tornei no porco preguiçoso, é outro mistério. Eu sempre quis ser o lobo.




7 comentários:

  1. Manelito vou dar-te um boa notícia, também ela decorre de um conto. Existem sempre um lobo dentro de nós. E agrada-me ver que o teu não é muito alimentado:)))
    A imagem está deliciosa moço bonito :))

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    1. fico sempre bem nas fotos quando estou a dormir :D

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  2. "possuir a atenção da plateia enquanto narrava com todos os pormenores"... Podes não ser um lobo, mas já conseguiste isto antes de ser velho... Não podes querer ter tudo...

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    1. Já cá vieste cheirar,cheirou-te?Depois diz que não percebe disto

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  3. Bem, não sou assim tão burra... E esta treta obriga-me a escrever duas vezes a mesma coisa...Paciência!

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    1. Bela,já viste as horas disto?O relogio não ta a funcionar bem,risos

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