sábado, 21 de março de 2015

prolixo



... ou pouco mais de um quilo de cinza!


A minha vida assemelha-se a um furo num daqueles cartões que sorteiam qualquer coisa, mas no meu caso, um furo sem prémio. Mas isto não é uma reclamação, é meramente uma observação, uma consequência de acordar dez minutos antes de acordar. Este desfasamento matinal, permitiu-me ver a coisa de uma perspectiva diferente. Aqui vai o pensamento fantástico: não adianta pressagiar, o que conta é o dia de hoje e o dia de hoje é um furo sem prémio. 

Tenho pensado seriamente nisto, é raro pensar seriamente em alguma coisa, e cheguei à conclusão que morrendo hoje, nada do que fiz seria digno de registo, apenas um vulgar consumo de oxigénio, banda-desenhada e muita cerveja.

Posso comprovar o que digo usando a teoria dos 50 anos. Não fui eu que a inventei, deus me livre de ter ideias tão boas, não sei se li ou se foi de algum filme, nem tenho bem a certeza se eram 50 anos, mas 50 está na moda e para o caso pouca diferença faz, 50 ou 60, ou até mesmo 100, o que ela explica é que se eu morresse hoje, exactamente hoje, daqui a 50 ou 60 anos, vá, ninguém se lembraria de mim, e como a memória seria a minha única presença, eu deixaria de existir. Recapitulando, se eu morresse hoje (estou a usar o passado porque afinal não morri) a probabilidade de em 2075 todas as pessoas que me conheceram estarem mortas, ou com Alzheimer é bastante grande, logo em 2075 tudo o que sou simplesmente teria escoado em espiral por um gigantesco ralo, deixando ao mundo apenas um quilo e duzentos gramas de cinzas.

É claro que isto não se aplica a quem tem descendência, e por isso se dá algum valor aquela velha máxima de José Martí, "Hay tres cosas que cada persona debería hacer durante su vida: plantar un árbol, tener un hijo y escribir un libro."

Mas isto não é assim tão trágico quanto possa parecer, nem tão importante que me tire o sono. Acordar dez minutos antes de acordar é aborrecido, mas é tudo uma questão de adiantar o despertador dez minutos. E se pensar bem até já devo ter plantado alguma coisa, não sei se lá continua de pé ou se uma via rápida lhe passou por cima. Quanto aos "hijos" e "libros", a worldometers calcula que este ano já se publicaram 547.205 livros em todo o mundo, mais de 30.300.200 pessoas nasceram, 210.000 só hoje. Talvez o mundo esteja a abarrotar de "hijos" e "libros" e até agradece que fique quieto, sóbrio (545.084 morreram este ano devido ao consumo de álcool, quase tantos quanto livros publicados), mas quieto no meu canto. Consigo viver com isso.



pro·li·xo |cs| 

(latim prolixus, -a, -um, alongado)


adjectivo

Que usa demasiadas palavras
"prolixo", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa 

3 comentários:

  1. Eu sou do bando dos maus, quero ir próinferno, eu sei, achaste que eu ia dizer prolixo, mas não, é mesmo próinferno, que lá é que estão as brasas. Quanto ao texto, desejável é que se lembrem de nós enquanto vivos, depois... quero lá eu bem saber disso.

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    1. prolixo lê-se o x com som de fixo, não como em lixo :D

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    2. Ó afilhado, posso não ser muita letrada, mas também não sou burra ahahahahaahh

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