quinta-feira, 8 de maio de 2014

buliceira

Uma agradável buliceira cobrira a cidade, ainda não tinha batido a silenciosa meia-noite na igreja de Mátyás. Por isso não saíram para o szimpla kert, permanecendo amontoados na espaçosa sala barra cozinha de Alicja, em torno da mesa pintada de azul, dispersos em número ímpar de cadeiras e bancos. Alguém enrolara um charro que girava no sentido oposto ao dos ponteiros do relógio, saltando entre dedos e bocas, misturando-se o fumo forte e adocicado com a fragrância do café acabado de fazer, tal como se misturava a música distante que tocava no rádio, na sobreposição habitual dos dialectos.

Acima da cabeça dos presentes julguei ver amontoados de palavras perdidas. Mas pode ter sido só uma alucinação de narrador não acostumado a tantas línguas.

Jochen nem precisou esticar o braço gigante, Alicja tornara-se pequena e fumava com a cabeça amparada contra o peito do namorado. Saboreou sem pressa, mantendo a nuca muito loira encostada, com um sorriso amplo nos lábios. Sentado junto estava o Maltês no seu triste traje destoando. Alicja arrastara-o, mesmo sabendo que seria difícil separa-lo do olhar de obsidiana, outra vez sentada no extremo oposto da mesa.
Sentia-se responsável pelo sofrimento alheio, mas próximo da uma da manhã já não guardava forças para animar o estrangeiro. Rodeou-o com os braços até onde conseguia, aproximando os seus mares interiores da cara do Maltês, afastando-o da visão de Bálint e Regina juntos, sem constrangimentos, mal apartando as bocas famintas e satisfeitas por provocarem um acesso de ciúme. Alterada do vinho, perdida na ondulação azul, Alicja sussurrava uma cantiga para crianças enquanto o tentava embalar, demasiado grande numa barca pequena, sacudindo o ciúme que teimava em corroer.
Quando Bálint se ausentou da mesa, libertou do jugo Regina, a dos olhos negros de obsidianas. A mesma que antes havia reinado no coração do Maltês fintou-o, com tal intensidade que este retribuiu.

Acima da cabeça dos presentes julguei ver cabos de aço esticados, de um extremo ao outro da mesa, estalando de tensão como chicotes. Mas pode ter sido só uma alucinação de narrador não acostumado a estes fumos.

Ninguém ousou intrometer-se, continuaram nas suas conversas, circulando a mortalha mirrada, descontraídos mas atentos à estática que pairava no ar. Bálint voltava a sorrir pelas costas do Maltês, as negras obsidianas desviavam-se do olhar do náufrago sem resgate para  encarar o mais recente pretendente ao trono. Como um abutre agarrou os ombros tensos de pedra do estrangeiro, atiçando com um discurso que nem todos entendiam, mas pelos rostos, podia dizer-se que agradava, esperando ansiosos o pior dos desfechos.
Só Regina não sorria, mortificada no extremo, engolida pela escuridão das suas íris, imaginava o sangue a ferver nos pulsos do Maltês. Mas ele não iria usar os pulsos, estava a calcular a força exacta que necessitava para se impulsionar e contrariar a força do abutre, aplicando-lhe na subida e usando a cabeça, um golpe na zona do nariz ou da boca, de modo a que ficasse uma semana sem sentir os lábios de Rainha. O corpo estava hirto, desperto, os pés descalços como era costume em casa de polacos, eram uma desvantagem, podia escorregar e falhar o golpe, pensava, quando a mão de Alicja lhe apertou o braço, e numa convulsão demoníaca projectou o tronco para diante, enchendo de vómito as calças e meias de Bálint.

Acima da cabeça dos presentes julguei ver uma auréola coroando a cabeça dourada da dona da casa. Mas pode ter sido só uma alucinação de narrador não acostumado a desfechos destes.


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