terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

febre

Espiava-os do fundo da salinha. Ela ria das coisas que o rapaz dizia, encostados ao balcão da cozinha, partilhando um cinzeiro a transbordar. Era o ciúme que o corroía. Desejava secretamente o lugar dele, dizer-lhe todas aquelas idiotices entre círculos de fumo, orelhas furadas e tatuagens nos nós dos dedos. Olhou em volta. Não havia um único livro pelo escasso mobiliário, nem remotamente esquecido. Reproduções de Warhol ocultavam manchas nas paredes, a mais detestável de todas era os clones da Marilyn Monroe. No sofá um rapaz e uma rapariga vegetavam de mãos dadas, os corpos amolecidos, apartados de olhos pelos pixeis do ecrã. Cobiçava o despojamento deles, o doce entorpecimento. Era a ausência de palavras. Sonhava um dia perder as palavras, esquecê-las nos bolsos ou nos bancos de autocarro. Admirava frequentemente quem nunca sofria da febre de descrever o voo dos pássaros.


 Gregg Deal, The Last American Indian On Earth


9 comentários:

  1. Mas a alma não pode ficar esquecida nos bolsos das calças...

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  2. Podia cobiçar, podia admirar mas será que realmente queria isso para ele?! Quando se é e se vê as coisas de determinada forma resta apenas pensar que se podia ser de outra forma. Mas não se consegue.

    (podia dizer que "cada um tem aquilo que merece" mas acho que ainda não)

    :))

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  3. Ao ler-te lembrei-me do texto que escrevi no Domingo no meu blog. Há dias que eu gostava de esquecer as palavras em algum lugar. Eu esqueço-me frequentemente de guarda-chuvas. :)

    Um beijo, Manel Mau. :))

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  4. comotentendo, Trovisco Manuel... :)

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  5. Ahh, essa febre...
    Vou ali ver se passa!
    Tejá.:))

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  6. Nahhhhhhhhh... qual quê!
    Depois andarias à procura delas.
    Seria uma canseira.
    E depois há silêncios bons mas esse... Pffff!

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  7. Sim, entendo-te. Mas depois não era a mesma coisa...

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  8. Febril de palavras é um sintoma dos bons, Stormy boy! Imagina-te sem elas!
    Impensável, não é?

    Beijocas, miúdo :)

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