domingo, 18 de dezembro de 2016

hífen

A minha professora da primária foi, a par com os velhos edifícios em pedra, dos últimos resquícios deixados pela ditadura. Era por assim dizer um peido de salazar. Vinha da província do norte e parecia ter mais cem anos do que realmente tinha, um dinossauro católico clonado pelo regime. Quando vejo estes sapatos da moda que imitam os antigos, lembro-me sempre dela, e não é uma memória muito agradável. Cada vez que a régua viajava no ar com destino à minha mão, era para os malditos sapatos que eu olhava antes de fechar os olhos. A porca segurava-me os dedos pelas pontas e deixava-me a mão a latejar. Acreditem, a maioria dos castigos corporais que recebi foi devido à minha complexa relação com as palavras. E de nada adiantou todas aquelas reguadas, continuei a trocar letras de sítio, a travar lutas com ligações enclíticas, mesoclíticas ou proclíticas, acentos, pontuação. A última vez que estive com a senhora, quis dizer-lhe que tudo o que ela conseguiu foi que eu temesse as palavras como se elas fossem dolorosos dardos afiados, mas mesmo agora que é uma velhinha com aspecto adorável, continuo a ter medo dela. Desconfio que até a morte anda à procura de coragem para a levar. 

all my friends are dead

30 comentários:

  1. :))

    Num almoço com os meus coleguinhas da primária fizemos, todos, questão de dizer à nossa querida professora as barbaridades que ela nos tinha feito. E a resposta dela foi " outros tempos, agora era impossível "
    Mas soube imensamente bem o dizer :))

    Beijoquinhas

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. a minha certamente nã se arrepende de nada, ela nã conhecia outra forma :)
      beijos menina

      Eliminar
  2. da professora da primeira classe, lembro-me que gostava de apanhar sol e ler livros, às sextas à tarde, enquanto nós limpávamos a escola...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. como a compreendo, os trabalhos domésticos são uma perda de tempo :)

      Eliminar
  3. Manel, eu nunca apanhei na escola, mas vi acontecer a colegas cenas deploráveis.
    A minha mãe era professora do ensino primário e sempre disse que se algum colega batesse nas filhas levava um processo disciplinar.
    Odeio pancada, castigos físicos, violência deste tipo, em qualquer idade e por que motivo seja. Cobardia pura.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. sorte a tua :)
      mas a criatura nã era só coisas más, às vezes tinha rasgos de humanidade...

      Eliminar
  4. Já eu, guardo as melhores recordações da minha querida Professora do ensino primário.
    Neste aspecto, fui uma felizarda...

    Bom Domingo, Manel. :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. até nas professoras é preciso ter sorte :)
      bom domingo Maria

      Eliminar
  5. Não de professora, mas de professor -- recordo que era mestre na arte de atirar a régua ao alunos com pensamentos voadores (talvez para apanhar os pensamentos em pleno ar).

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. a minha tinha uma vara imensa e com ela "pescava" todo o tipo de pensamentos voadores... outros tempos :)

      Eliminar
  6. A minha era assustadora. Tinha um olhar de ave de rapina que nos trespassava o corpo e revolvia os pensamentos, sempre à procura de um deslize. Era mestre no manejo da régua e do ponteiro. Tinha um semblante muito sério, só a via sorria quando nos aplicava reguadas, mostrando uns dentes como uma hiena. Não guardo boas recordações dessa época. Recordo-me dela de carrapito, com verrugas e bigode. Coitada, provavelmente não seria assim tão feia, mas, para mim, era uma espécie de monstro. Manel, não sei que problema é que tu tens com as palavras. As que que aqui leio são sempre bonitas, límpidas e certeiras. Gosto muito de ler o que escreves.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. obrigado Miss Smile, mas durante anos temi dar uso às palavras até encontrar o antídoto: uma professora de português genial :) Vendo bem, tudo o que ela teve de mau e de bom, e se calhar o mesmo se aplica à sua feia professora, marcaram-nos, mas também nos terão feito mais justos... nã? :)

      Eliminar
  7. Aí sr Manel, fui muito feliz na escola primária. :)
    Eu adorava fazer ditados, tinha muito jeito para inventar histórias.
    Nos recreios, era eu quem comandava as tropas "as miudas" todas dançavam e cantavam! :)
    Tenho ideia que a minha professora era um doce. Também tive alguns castigos mas, nada de traumatizante.
    Obrigada pela lembrança da infância.
    Em relação a imagem,
    Presentemente não me tenho esforçado minimamente para conhecer pessoas mas ... um passo de cada vez! :)
    Beijinhos e continuação de bom domingo, sr Manel.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. senhora Dona Flor, nem me fale em ditado, até ficava doente quando a senhora professora dizia essa palavra odiosa, ficava num estado tal que nem a comida me passava pelo esófago :)
      fico feliz por ter boas lembranças, nem todas as que tenho são más. Boa semana, beijos

      Eliminar
  8. A minha era austera, rigorosa, mal disposta e possuidora de uma régua de madeira pesada que usava a torto e a direito. Agora é só uma velhinha inofensiva, mas é impossível perdoar-se o primeiro contacto com a crueldade.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Estou a pensar nas consequências desses gestos, certamente nã foi igual para todos, a mim marcou-me talvez porque os meus pais nunca me aplicaram castigos físicos, foi um conceito novo :) pode ser que ela morra no natal...

      Eliminar
    2. A mim também. Não sabia nada sobre adultos com réguas e lembro-me do espanto da primeira vez (foi também a única, porque ao contrário da maior parte dos outros eu tinha quem me defendesse). Não me entortou as letras, mas traumatizou-me a matemática.

      Eliminar
  9. Estou um bocadinho pior, tenho poucas recordações da primária e das professoras nenhuma. Estão a ver a importância que a escola teve na minha vida, ninguém diria depois desse primeiros anos que depois nunca mais sairia da escola, estudar e depois ensinar uma vida inteira. Mas tenho memórias do meu quintal, da enorme mangueira, das bolas de sabão feitas em cana de mamoeiro, dos enormes formigueiros...e de aprender a ler pelos cadernos da minha irmã mais velha.
    ~CC~

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Ué, que maravilhosas recordações :-))

      Eliminar
    2. no caso de serem várias professoras, acredito que seja difícil lembrar todas, mas levei com aquela 4 anos seguidos, nem tudo foi mau, mas podia ter sido melhor :) com tanto nesse quintal, nã me admira que a escola ficasse em segundo plano...

      Eliminar
  10. fizeste-me ir ao diccionário e vir de lá na mesma...
    a tua professora que vá pentear macacos. diz-lhe que eu mandei dizer...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. sim senhora, eu digo-lhe :) quando ganhar coragem

      Eliminar
  11. Lembro-me bem daquela régua envernizada de madeira maciça e um pouco curva que era o verdadeiro poder da professora do primeiro e segundo ano. Lembro-me bem como ela me deixava as mãos por causa dos números e da tabuada. Depois veio a revolução de Abril :)
    Ainda hoje odeio números :))

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. veio abril mas nã me apanhou na maré, gostava de entender, mas esse país é sempre a dar passos atrás...

      Eliminar
  12. Cada vez mais me capacito que tive um paizão muito à frente. Ai de quem tocasse num fio de cabelo de um filho seu e, por saber disso, e me ter sido ensinado que nunca deveria permitir que alguém me maltratasse, fosse de que forma fosse, é que, no dia em que a professora Regina quis usar a palmatória em mim, eu me levantei, virei-lhe as costas, sai porta fora e só voltei pela mão do paizão, que quis saber o que passava. Para azar dela estava uma colega joelhada na caixinha do milho, o pai não queria acreditar no que via, e acreditem que levantou a senhora do chão pela gola engomadinha da alva bata. Aquele foi o ultimo dia das caixinhas do milho e das caricas e também da palmatória. Não sei o que o pai lhe disse em voz baixa, mas que resultou, resultou, para toda a turma. A sério pessoal ficou mais doce que um docinho de Vouzela de onde era originária, e quando foi embora até choramos, não lembro se foi de alegria eheheheh

    ResponderEliminar
  13. Não tive essa experiência traumática das reguadas, nem em mim, nem nos meus colegas. Dos poucos meses em que frequentei a primária por cá, não recordo nada disso. A professora era jovem e não usava dessa malvadez. Depois emigrei e o pior que me aconteceu foi a professora rasgar uma ou outra página do caderno, sinal de que a coisa não me estava a sair bem...

    [quanto às palavras, as que se escrevem neste blogue parecem-me fluir e ajeitar-se muito bem... :)]

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. tiveste sorte :) rasgar páginas, isso até era divertido!
      [um destes dias ganho coragem e mostro à senhora professora as coisas que aqui escrevo... e pode ser que ela tenha um ataque cardíaco :)]

      Eliminar