repelente
repelente ou pêssego parte dois
"Precisava de um repelente" disse, acrescentando de imediato "para insectos" esclareci, por via das dúvidas, à senhora da farmácia. Sim, a minha vida é basicamente isto, incomodar pessoas, principalmente senhoras/deusas, em estabelecimentos comerciais. Comecei então por pedir um repelente. Para insectos, melgas para ser mais específico. "Mas vai para o estrangeiro, ou é só mesmo para usar cá?", perguntou a senhora atenciosamente. "Melgas de cá mesmo!" expliquei. "Em roll-on ou spray? Recomendo o roll-on, mas há quem prefira o spray" Sugeriu, percebendo que era a primeira vez que o matarruano comprava algo do género. "Pode ser o roll-on" disse, acrescentando: "mas veja lá se isso não é muito caro." . Enquanto ela passava o scaner e ia aplicando o desconto, explicava que este ano realmente as melgas estavam muito ariscas, mesmo a filha dela que nem costumava ser muito suscetível, tinha ficado toda marcada com pequenas picadas. Eu sabia qual era a sensação e nem sequer os inseticidas elétricos resultavam. Era necessário uma medida mais drástica. Lá me disse o preço com desconto para ciganos, e enquanto eu pagava, explicou que era só passar o repelente pelas pernas e braços... Senti que havia alguma hesitação na sua voz, ao que acrescentou: "as zonas mais expostas!... ". Já estávamos os dois corados neste ponto, ela provavelmente a imaginar que não durmo de pijama, ou nem sequer a pensar nada disso, eu a pensar que ainda ontem fui picado na nádega esquerda... e depois disse "não pode dar beijos na pele depois de colocar o repelente". Senti que se fez um enorme silêncio à nossa volta, ela já não conseguia encontrar um saco de papel onde colocar o repelente, eu tinha os olhos nos sapatos, a pensar o que responder a isto dos beijos... certamente não seria isso que ela queria dizer, ou até era. Não faço ideia do tipo de queixas que recebem por não avisarem que não se deve colocar estes produtos e depois andarem aos beijos. E então a minha personagem saiu em meu socorro e respondeu: "isso nã será problema, a mim já ninguém me dá beijos". Ela corou o dobro. As colegas por detrás do balcão que fingiam estar ocupadas, seguravam o riso, atentas ao episódio "o homem repelente". O olhar dela modificou-se, parecia pena, mas eu não queria isso, longe de mim querer que tivessem pena de mim, ou que aquela pessoa tão atenciosa ficasse por momentos triste. Que idiota, pensei, diz qualquer coisa simpática e então lá me saiu: "só ser for o cão, esse sim, gosta de dar beijos!". "E esses se calhar até são os únicos beijos que valem a pena... " respondeu ela, "ao menos são sinceros."

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