carretel
... ou o elevador horizontal holandês
Era feliz e não sabia. As noites eram repousantes, pautadas de sonhos memoráveis e ocasionalmente desassossegadas por um ou outro pesadelo avulso. Por vezes achava-me a acordar exactamente no mesmo sítio onde caíra no sono, os lençois ainda perfeitamente estendidos sobre mim. Mas isso acabou, as noites agora assemelham-se a campos de batalha, onde me sinto sair mais exausto do que lá entrei. A cama fica desfeita, por mais que cinja os resguardos e a mortalha, na manhã seguinte está tudo enrodilhado num único feixe. Mas se o problema fosse esse, continuaria a ser feliz, pois só perderia um pouco mais de tempo a compor a cama. O grave parece-me é que perdi a capacidade de sonhar comedidamente. Não sei se consigo fazer-me entender, mas os sonhos agora surgem-me em catadupa, uns atrás dos outros, ou misturados, entrando uns nos outros, como reels no tiktok. Reel quer dizer carretel ou bobina, e estes reels do tiktok ou instagram, são pequenos vídeos, normalmente com conteúdo divertido, projetados para serem consumidos rapidamente, como tudo o resto. Mas não há absolutamente nada de divertido em consumir os meus sonhos rapidamente, principalmente aqueles em que sou abençoado pela presença de uma musa. Foi tudo tão efémero. Num minuto vi-a a brincar com um pássaro ou um cão com asas, no pequeno areal. Eu vinha do mar, mas não me parece que ali chegava de barco, mas sim a nado, como se fosse um sereio. Estava longe e de repente junto a ela, bela e solar, Dagny Kielland, a filha do pastor no romance de Knut Hamsun, numa fusão loira com a divindade do supermercado. Mas foi como disse, um minuto, ou talvez menos. Não sei como logo a seguir, dei comigo a carregar um elevador com todas as bagagens da menina Dagny. Era possível que ainda estivesse dentro do mesmo sonho, mas o que acontece com estes carreteis de sonhos é que pouca ou nenhuma memória consigo conservar até ao acordar. Quando comecei a árdua tarefa de o condensar a partir de pequenos fragmentos, só me lembrava do bizarro elevador horizontal holandês. Ela veio depois, ela e o montão de baús, alforges, malas e maletas, valises, sacas e sacolas, até parecia que tinha andado a palmar no aeroporto de Lisboa. Estava então como já disse, a colocar todo um manancial de bagagem num elevador e lá subi até ao quinto ou quarto piso, entalado como podia, com a esperança de ser convidado a entrar nos aposentos da deusa. Tudo parecia correr de feição, faltava por fim o grande baú em couro, com cantoneiras em metal e grandes pegas laterais, quando a porta do elevador se fechou. Tratando-se de um elevador normal, não haveria qualquer inconveniente nisto, mas o que acontece nos elevadores horizontais holandeses é que assim que abri novamente a porta, o baú tinha desaparecido. Além do mais, já nem era sequer o mesmo elevador, mas sim um outro que viria no seguimento. Dei comigo a entrar em pânico e a abrir todas as portas de elevadores, que eram pelo menos umas quatro, mas eram todos diferentes e todos os elevadores estavam vazios. Então resolvi entrar no primeiro elevador e carreguei no que me parecia ser um cinco, pois afinal eu estaria no quarto andar e se calhar o elevador que transportava o baú estava no quinto. Foi quando descobri que o elevador se movia primeiro na horizontal e só depois ascendia na vertical até ao andar de cima, como acontecia com todos os elevadores holandeses.
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Edvard Munch - Self-Portrait in Bergen |


É o que dão as identidades compostas, uma bela mistura de referências...agora são sonhos multiculturais:)
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