alheamento
O tumulto de mais de três mil cavalos de potência da locomotiva a diesel, ofuscava completamente a voz um pouco estridente de entusiasmo da vizinha. Devolvi-lhe um meio sorriso. Não tinha ouvido praticamente nada, mas sabia que assim que a locomotiva avançasse e antes de entrarmos na nossa carruagem, ela iria repetir a divertida conversa que acabara de ter com o fator.
O som não avançara sozinho no assalto aos sentidos; o odor intenso e acre a óleo e a madeira queimada também contribuíram para me arrastar dali para outra dimensão. Sofria desse alheamento quando um dos sentidos ficava saturado e sob o efeito daquela trepidação e do cheiro, a mente vagueava. Logo depois, veio o esforço de organizar as palavras, o desejo de prender no papel o que acabara de sentir e dar forma textual a uma sensação abstrata. Mas o resultado era medíocre.
Dissipada a vertigem, o meu corpo relaxou no silêncio matinal das segundas-feiras, acolhido por uma carruagem lenta e adormecida. A vizinha recontou apenas uma vez a história do ferroviário que caminhava quase um quilómetro para mudar a agulha, recorrendo à bicicleta sempre que o tempo permitia. Pensando bem, a graça diluía-se. Havia algo de ridículo naquele vaivém humano e arcaico, numa tarefa que a tecnologia há muito devia ter automatizado.

Por onde anda? Locomotiva a Diesel? Bom, também costumo acordar com o comboio de mercadorias que passa entre as 6h e as 7h da manhã, eu e meia cidade...recuo também umas décadas sempre que ele passa.
ResponderEliminarando por entre o mais profundo deste território, onde os apeadeiros pararam no tempo. Estarei também eu parado? :)
EliminarAntes parado que numa correria frenética. Parado pode olhar, ver, saborear e contar-nos coisas.
EliminarNão sei se já lhe contei, mas na minha piquena localidade, as agulhas são trocadas manualmente por um ferroviário. Um anacronismo, nesta era digital. Elas distam cerca de um quilómetro entre si. Não entendo que o ferroviário nunca tenha optado por uma bicicleta, enfim...e, o vizinho? Como está?
ResponderEliminarnã me surpreenderia nada que tu fosses minha vizinha :) embora se possam contar pelos dedos das mãos as pessoas que aqui entram no comboio e poucas terão uma voz como a tua :)
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