queixo

 O homem regava a horta de cima para baixo, aproveitando o declive da terra e as forças gravíticas. O queixo ainda andava caído, perdido no meio das batatas, com as coisas que lia da mulher que escrevia e enquanto regava, o homem cismava: porquê que os homens não lêem literatura escrita por mulheres? Segundo o que tinha lido sobre uma sondagem, 81% dos homens inquiridos escolheram livros escritos por homens. Claro que isto não lhe dizia respeito, para ele tanto fazia o género da pessoa que estava junto ao título, raramente escolhia baseando-se no escritor, mas se fizesse uma análise estatística de todas as leituras que tinha feito pela vida fora, óbvio que as autorias masculinas prevaleciam. 

Durante séculos os homens dominaram, não porque eram melhores, mas porque as mulheres dificilmente conseguiam publicar. Provavelmente ainda existe muito filtro masculino nas editoras e depois também há muito idiota que pensa que as mulheres só escrevem sobre coisas "fofinhas". Já lhe tinha acontecido notar que grande parte da colecção que possuía de livros de ficção científica da Caminho, eram escritos por homens, com umas raras aparições femininas como a Octavia E. Butler e a Marion Zimmer Bradley, e no entanto, tinham sido publicados durante o tempo em que viveu a maior escritora de ficção científica, Ursula K. Le Guin, a quem não dedicaram nem um título. 

Enquanto a água escorria pelas covas mal ajeitadas, começou a analisar apenas o presente ano de leitura que já contava com trinta e sete títulos, riscando na terra os traços para cada um dos géneros. 

mulheres escritoras: \ \ \ \  \ \ \ \  \ \ \ \ \ \ \ \ \ \ \ \ \  20

homens escritores: \ \ \ \ \ \ \ \ \ \ \ \ \ \ \ \ \ 17

A proporção não o surpreendeu, era equilibrada: cinquenta e quatro porcento de mulheres escritoras, para  quarenta e seis porcento de homens escritores, concluindo que realmente o género de quem escreve não contribuía para a escolha dos títulos. No entanto, pensou, se tivesse de escolher o livro que mais satisfação lhe dera neste últimos seis meses e o que o mais recomendava, esse tinha sido escrito por uma mulher, espanhola, Irene Solà, Dei-te Olhos e Viste as Trevas. 



Comentários

  1. São coisas sobre as quais também costumo pensar...cheguei à mesma conclusão sobre um clube de leitura ao qual às vezes vou, depois de o dizermos, começaram a escolher mais mulheres...mas de facto não se deve escolher pelo género, apenas estar atento à ordem das coisas na óptica de defesa dos direitos...quanto a essa escritora, fiquei curiosa e com vontade de ler...mas é um policial? Não morro de amores por livros policiais por uma razão simples: a maior parte das séries do canal 2 aqui em Portugal (digo isto porque suspeito que não mora por cá, nunca percebi muito bem) são policiais, como são as únicas que consumo, já tenho dose que chegue. Olhe que está calor, as couves vão exigir mais água:)

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