Byōbu

 Dão à costa da memória, fragmentados em imagens, sensações estranhas, um emaranhado de seres que não queremos calcar. Pedaços sem contexto são arrastados pelo areal do crepúsculo, as últimas paisagens do mundo onírico, transformado agora sem sentido num mar de destroços e membros. O bafo quente da gata grande resgata-me. Tem dormido junto à minha cabeça, velando-me dos pesadelos que talvez ela própria evoca. Afago-lhe o pelo macio e ela ronrona uma resposta. 

Uma janela maior que este quarto, que forma uma parede de baixo até cima. Lá fora é uma floresta densa de coníferas, noturna, parada. Não há uma área de transição, uma vedação ou clareira. Como se o edifício, supostamente um hotel, estivesse posicionado no interior de uma floresta estática. Não é uma imagem, é mesmo uma janela imensa, hermética aos sons e odores, mas aberta às cores e formas das árvores e arbustos, fetos, perfeitamente nítidos embora seja noite e nenhuma luz artificial a ilumine. Estou num quarto de hotel, venho em trabalho. Antes do quarto recordo-me dos estranhos compartimentos que parecem câmaras de descompressão, onde irei trabalhar no dia seguinte. É tudo novo e confuso, sinto-me desconfortável, lento e gasto. Perco-me à procura do quarto. Não há porta, ou talvez tenha passado por ela e não a vi. O quarto não tem absolutamente nada do que se espera de um quarto de hotel. Continuo a achar que estou perdido, mesmo quando já não há aquela multidão que ali estava antes de ter entrado. O chão tem terra e rochas com musgo, como se fosse a continuação do exterior, mas sem os fetos, os abetos, ou os larícios. A janela é um pouco assustadora, como um biombo hipnotizante. Não há uma cama ou algo que se pareça com isso e preciso mesmo de descansar. Não me recordo do resto, só sei que há imensas divisões, mas em nenhuma há condições para me deitar. Sem saber como volto aos corredores do hotel que nada se parecem com corredores, mas sim com enormes auditórios onde se encontram imensas pessoas. Alguém que não sei quem, tenta ajudar-me. Aquilo não é um quarto, informam-me, claro que não é um quarto. Mas não sabem se há um quarto a mais, talvez haja, com cama e tudo. Somos conduzidos, eu e a outra pessoa que me quer ajudar, a um pequeno compartimento onde existe algo que parece um jacuzzi e que ocupa praticamente todo o compartimento. Pode ficar aqui neste quarto, diz-me a pessoa do hotel, quando acabarem de servir o jantar. É um mini sushi bar. Eu não entro, só espreito pela porta, porque o espaço é pequeno e está cheio. No suposto jacuzzi atarefam-se várias pessoas com trajes brancos de chefe que me sorriem. Na borda da banheira ainda restam alguns vestígios de sashimi, makis e nigiris perfeitamente alinhados. Agora para além do cansaço, também sinto fome. 


"Pine Trees" by Hasegawa Tōhaku (Japanese, 1539–1610)


Comentários

  1. Há quanto tempo anda com vontade de comer sushi para isso invadir assim os seus sonhos?! Se o David Lynch o tivesse conhecido transformaria todos os seus sonhos e pesadelos em grandes filmes. Eu, que em geral durmo lindamente em quartos de hotel, depois disto não sei não...

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    1. por acaso já vai algum tempo que nã como sushi, aqui na aldeia nã há muito disso :D ehehehehe, parecem mesmo cenas de filmes, e a pensar na saúde mental de quem aqui possa vir ler, até evito contar os piores :)

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  2. Perdoa, Manel! Tanta insistência para te ver a escrever novamente, e, agora que o fazes, deixaria passar este teu sonho/pesadelo em brancas nuvens. Ele há coisas!!!

    Beijos, com sentimento de culpa. :-)

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    1. Realmente, uma pessoa sente a pressão e depois nada :D tás perdoada! beijos, com muitas amêndoas de páscoa

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