laroca

 

Passaram mais de dois anos desde que o vírus chegou a estes lados e continuo, aparentemente, livre dele. Talvez esse fenómeno se deva ao facto de ter poucos amigos, muito trabalho e as pessoas daqui serem naturalmente distantes. Mas também é preciso relembrar que nos transportes públicos e supermercado, desenvolvi a capacidade de respirar pelos olhos. Os meus pseudonetos irão perguntar-me como era isso possível. Também lhes falarei da surpresa que alguns rostos provocaram quando o uso da máscara caiu. Algumas pessoas nunca as vi sem máscara e se um dia nos voltarmos a encontrar, nunca as reconhecerei. É possível que esta não seja a última das pandemias. Como pessimista de nascença, acredito que seja apenas o início. Os pseudonetos poderão habituar-se a elas e talvez se interessem mais por saber como se vivia antes. Lembro-me que havia tipo um protocolo. Direi, com um ar pensativo, fazendo uma pausa de quando em quando para respirar o oxigénio por um tubo. Em algumas culturas beijava-se na cara as senhoras e aos cavalheiros apertávamos a mão. Aqui no norte sempre tive alguma dificuldade, são quase como os asiáticos, mas não me continha quando havia uma cara laroca na equação. Agora parece que perdi essa capacidade de dar um passo em direção à “cara laroca” e pregar-lhe dois beijos na confusão. Os pés colam-se ao chão. Eventualmente aceno, ou ainda mais estúpido, curvo discretamente a cabeça. Havia de cair do pescoço. Às vezes penso que não vivi nada disto. Terei lido em algum livro ou roubei as melhores cenas de um filme. Parece tudo pura invenção, uma ficção de baixo orçamento.





Comentários

  1. Felizmente, o vírus, também ainda não me encontrou.
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    Escrevi sobre o dia da mãe. Domingo feliz. Abraço.
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    Pensamentos e Devaneios Poéticos
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    1. e escreveu muitíssimo bem :) invejo essa capacidade de versar sobre um assunto tão especial. Boa semana, abraço

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  2. também ainda estou livre, sou a única na família e amigos

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  3. Se calhar, é receio que a carinha laroca não seja assim tão laroca. As máscaras até tinham algumas vantagens.

    Eu também não terei netos mas, tenho sobrinhos-netos! E gostava de ter este talento para contar histórias.

    Gostei da foto do cabeçalho.

    Um abraço do Algarve,

    Sandra Martins

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    1. acho que nã isso... já nem me posso dar ao luxo de só beijar as caras larocas :) fico hesitante! mas há quem avance e eu deixo :D
      abraço cá de cima

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