Kitsune


Os jovens retomaram as tarefas com a promessa de que mais tarde o homem daria continuidade à história. Agora tinha de terminar o livro, pensava enquanto lavava e arrumava a loiça. Não é que fosse mau, mas tinha quase a certeza que seria desapontante. Os “miúdos” como ele lhes chamava, estavam entusiasmados, mas provavelmente devido à sua sinopse que omitia os erros na narrativa, deslizes do autor, como aquelas personagens trazidas à luz do dia só para cansarem de aborrecimento o leitor.  A cena da raposa também não fazia muito sentido, parecia ter sido ali plantada para preencher páginas. Mas isto também era importante, aprender a distinguir uma boa história de uma má história. Se calhar, pensava o homem, todos deviam ler o livro e depois expressarem a sua opinião, em vez de terem o resumo e a opinião de alguém que certamente via o mundo de forma muito diferente.

O jantar ao contrário da maioria dos dias, fora estranhamente ordenado e silencioso. Depois de tudo limpo e arrumado, juntaram-se na sala a meia-luz, sentados pelos sofás e em almofadas no chão. Havia perguntas e imagens a brotarem de cada cabeça em forma de balões imaginários, ansiosos pela cena da raposa. Lembram-se que era o medo que despoletava a comunicação psíquica entre as gémeas, disse o homem. O livro fala de outro medo, mas não entendo porquê que é trazido para a história. O personagem principal tem medo de raposas, aparentemente por ter sido mordido em criança. Não sei bem como, já que diz algures que ele nunca tinha saído da cidade e sendo a alimentação da população feita à base de gelatinas nutritivas, também referido no texto, de que restos se alimentaria uma raposa nessa cidade. Podia ser uma raposa domesticada, sugeriu um dos mais novos. Sim, podia, concordou o homem. Ou num daqueles jardins com animais, disse outro dos jovens. Podia ser só na cabeça dele, acrescentaram. Os cães são parecidos com raposas, podia ser um cão, completou a rapariga de olhos claros. O homem não tinha previsto esta discussão. Achava que simplesmente contaria o resto da história e deixaria os miúdos dececionados com o pouco acrescento. As raposas mordem pessoas? Perguntou um dos mais novos. Acho que podem morder, embora nunca tenha conhecido ninguém a quem isso tenha acontecido. Mas adiante, depois da chegada antecipada da Primavera, o homem é convidado por dois camponeses a juntar-se a eles numa caça à raposa. Apesar do medo ele vai e o que acontece é que cai numa toca e fica cara a cara com uma raposa. Primeiro fica petrificado com o medo mas depois consegue controlar-se, porque a raposa também está com medo e parece que se forma uma ligação empática entre ele e o animal, um pouco como a ligação que é estabelecida entre as gêmeas.  O homem consegue sair da toca e coloca-se entre a raposa e a arma do camponês, evitando a sua morte. No entanto a raposa tinha uma companheira que não tem a mesma sorte e no momento em que o homem cai na toca, um dos camponeses acerta na raposa e os chumbos esventram o animal, revelando que estava prenhe. Oh! disse a plateia, isso é mesmo horrível, acho que vou ter pesadelos, acrescenta a rapariga que parece um ratinho amedrontado. Não entendo porquê que o autor resolveu “matar” a raposa, não faz grande sentido, disse o homem, transtornado com a imagem que a sua cabeça conseguia reproduzir vividamente. Os medos podem desaparecer? perguntou a jovem com mares nos olhos.  Acho que sim...




Comentários

  1. Caríssimo contador de estórias destinadas a traumatizar adolescentes... permite que lhe pergunte poque razão escreve gémeas com acento cincunflexo ?
    Sei que aprendeu a ler e a escrever em Portugal, onde, pese embora todos os acordos ortográficos que, estupidamente, levaram a quem o adoptou, passasse a escrever segundo os seus ditames, desde nomes de pessoas, países e meses do ano, usando letra minúscula, e...pasme-se, até os acentos agora usam como se vivessem no Brasiú, terra quirida descoberta por Cabrau...Inaudito!
    Faça-me um favor, escreva "gémeas" acentuando a primeira sílaba com o nosso belo acento agudo, ou corre o risco de que alguém, mais mal intencionado, pense que fez copy/paste, usando um texto de um escritor brasileiro.
    Já não lhe basta a fama de plagiar El Rei D. Dinis?


    De Vª Excelência, mui digno e respeitado escriba das internetes, assino,
    atenta e antecipadamente grata pela atenção dispensada:

    Janita Moreno.

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    1. eheheheheh, se reparares bem na primeira escrevi com o acento certo e na segunda vez com o acento errado... lá está, depois de ter perdido o medo aos erros, comecei a escrever sem pensar na dor :) e isto também prova que tentar corrigir com porrada não funciona

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  2. As histórias para crianças (ver contos de fadas) podem falar de medo e horror, pois isso permite que os miúdos falem dessas emoções, não vejo mal nenhum...
    Já isso das pessoas se alimentarem de gelatinas parece-me mais aterrorizador:)
    ~CC~

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    1. é um dos meus pesadelos, acabar os meus dias a gelatina...
      :)

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  3. É bom que se diga dos medos.

    Beijocas, Manel

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