grão-de-bico

Planeei o almoço de hoje com a antecedência necessária para que a curgete, o pimento e os espinafres estivessem prontos a serem colhidos uma hora antes. Ontem comprei o grão-de-bico seco e também a pimenta preta em grão para preparar o garam masala, ou talvez deva dizer: a garam masala, pois supostamente masala significa mistura de especiarias e garam é quente. Não faço ideia se haverá disto nos supermercados, mas sempre que surgia esta mistura nas receitas, eu desistia e procurava outra. O problema é que esta receita já levava vários meses de preparação e não seria a garam masala que me ia demover de a executar, e então fiz o que qualquer idiota consegue fazer: procurar na net. Quando comecei a separar todas as especiarias para a "mistura quente", descobri que tinha uma embalagem quase inteira de pimenta preta em grão e que tinha acabado de comprar outra (agora vou ter de procurar receitas com pimenta preta em grão). Não segui à risca as quantidades, nem a ordem de trituração ou de aquecimento, limitei-me a atirar para dentro do almofariz um pouco de cada ingrediente e depois de tudo estar em pó, virei para dentro de uma sertã e aqueci apenas o tempo necessário para que se libertasse uma nuvem de vapor. O cheiro é fenomenal, vale pela experiência. Percebo agora que talvez tivesse sido mais fácil primeiro tostar as especiarias na sertã (gosto muito da palavra sertã) e só depois pulveriza-las, pois elas tornam-se mais quebradiças e consegue-se um pó mais fino com menos esforço (usei cominhos, pimenta preta e coentros em grão, cardamomo daquele que se compra em vagem e tirei as sementes, cravinho e canela em pau que cortei em pedaços pequenos com uma tesoura antes de pulverizar no almofariz).
Hoje de manhã, antes de ir à horta, deixei o grão-de-bico de molho em água fria e assim que cheguei, mudei a água e coloquei num tacho ao lume com meia cebola, uma folha de louro e alguns cravos-da-Índia. A receita falava em duas horas e foi quase esse o tempo que demorou a cozer o grão-de-bico. Em minha defesa, foi a primeira vez que cozi grão, pensei na minha inocência que uma hora seria suficiente e quase deitei a perder vários meses de planeamento. Normalmente compro daquele já cozido, mas achei que nesta receita de salada indiana fazia grande diferença cozer com especiarias e a cebola, e a casa ficou com um cheiro muito agradável (... também é possível que tenha ficado um pouco intoxicado com o cravinho e terei tido algumas visões no decorrer da confecção, mas o que seria de mim sem visões?). 
Com duas horas de espera, que eu pensava que seria só uma, fui picando uma cebola e um alho, cortei o pimento vermelho (uma parte só, não usei um inteiro) e a curgete (cerca de um terço) em pedaços pequenos, e ainda lavei e arranquei os talos dos espinafres. Cortar legumes é uma actividade muito relaxante, é como praticar tai chi com uma faca e uma tábua, descalço. Já tinha pensado nisto antes, muito antes de ter planeado este almoço, é que nem sendo um exímio cozinheiro, nem sabendo picar cebola como um profissional, sempre que pego na cebola e a coloco na tábua, é como se toda a vida não tivesse feito outra coisa que não fosse picar cebolas, ou corta-las em rodelas, gomos, o que seja. É complicado de explicar, mas esse gesto tão simples e cotidiano, consegue ligar-me a outra dimensão, outro tempo, talvez a vidas que esqueci. Às vezes até choro! 
Quase uma hora depois e após muitas inspecções ao estado de dureza do grão, salteei a bela da cebola e o alho num tacho com azeite, adicionei açafrão-das-Índias, cominhos em grão e a garam masala. Fica uma coisa linda! Com a fome que tinha e o aspecto saboroso da cebola, nem sei como aguentei não comer só a cebola e o alho, e resistindo aos impulsos demoníacos do meu estômago roncador, adicionei o grão-de-bico escorrido, cerca de uma chávena da água de cozedura, polpa de tomate e o pimento. Isto ficou a cozinhar mais uns vinte minutos até o grão-de-bico amolecer e o líquido evaporar. A minha sorte, como já disse, foi planear tudo com muita antecedência, ou teria almoçado por às cinco da tarde. Quando o grão começou a ficar quase preso ao fundo do tacho, adicionei a curgete e o sal. Os espinafres só lá foram parar quando tudo o resto já estava bem cozinhado e desliguei logo de seguida. A receita dizia para deixar arrefecer, já que se tratava de uma salada, mas por essa altura tinha perdido a capacidade de reter a saliva e com o cérebro toldado por desidratação, saltei esse passo. 
Isto tudo para dizer que fiz uma salada muito boa com legumes desta época plantados por mim e grão-de-bico. Estou satisfeito, para não dizer, cheio. 


Comentários

  1. eu faço grão tikka masala... é delicioso.

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    1. nunca fiz… sem carne? picante? podes partilhar a receita?

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    2. Sem carne e picante :)
      Vou sussurrar te ao ouvido quando te encontrar no mundo das estrelas :)

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  2. Carago, Manel! Primeiro que chegasse ao fim do texto ia perdendo o apetite para a 'granada'.
    O aspecto é delicioso, mas talvez o sabor não me agrade assim tanto. Eu explico; não gosto do gosto dos cominhos e prefiro usar piri-piri em detrimento da pimenta preta. Isso é uma bomba para o teu estômago, moço. Depois é que são elas!!

    Que maravilha já teres espinafres, - os meus parecem ervas daninhas, crescem e multiplicam-se a olhos vistos - e curgetes da tua hortinha. E então? papaste tudo ou ainda tens almoço para amanhã? :)
    Beijocas e bom apetite, Manel.

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    1. eu cozinho doses únicas… nã vá a coisa correr mal e depois estrago comida… já foi tudo!
      beijocas, boa semana

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  3. O aspeto põe-me a babar, mas depois de ler o post, desanimo. Tenho problemas de estômago, que não me permitem semelhantes caprichos.
    Abraço, saúde e bom fim de semana

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    1. é uma saladinha :) muito dietética!
      boa semana Elvira, saúde e um abraço

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  4. Tem bom aspecto si senhor! É receita que até vai calhar bem num dia de mau-tempo!

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