sepultura


Gostava de morrer caído no meio das couves, terei dito naquela conversa já longa sobre a vida e a morte. Houve um silêncio de dúvida e inquietação. Alguns certamente imaginaram o cheiro das hortaliças e da terra, a frialdade do sepulcro, os vermes a passearem pelo corpo no último suspiro. Óbvio que morrer durante o sono ainda é a minha preferida e se pusesse escolher, partia envolto numa mortalha cálida de sonhos. Mas não acontecendo, espero que seja rápido e se tombar no meio da horta e ali ficar, tanto melhor. Isto para dizer que não quero morrer num lar. A última vez que entrei num, saí de lá transtornado. As minhas couves viviam com mais emoção que a maioria das pessoas que lá estavam. Não quero acabar os meus dias sendo menos que uma tronxuda ou um repolho, ali prostrado em frente de um cacarejar televisivo. E com esta ideia fixa na cabeça tenho levado o meu barco na direcção de um casebre com horta e pomar, um cão, meia dúzia de ovelhas para pastar e se der conta do recado, duas colmeias. Mas morrer sozinho… alguém disse. É só na partida, depois há sempre alguém do outro lado à espera, pelo menos o nosso cérebro é isso que projecta próximo do fim. De novo o mesmo silêncio de dúvida e inquietação. Eu sei, já lá estive.






Comentários

  1. Confesso que também gostava que, quando morresse, tal acontecesse durante o sono.,
    .
    Um dia feliz
    Cuide-se

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    1. nem vale a pena fazer sondagem... acho que todos queríamos essa opção :)
      abraço

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  2. "Eu sei, já lá estive"...
    O que falas não é de morrer sozinho. É de morrer livre.
    Tão diferente um conceito do outro.
    O "Ser eu"! até ao fim.
    Atreveria-me a dizer que, fora os fóbicos e os psicóticos, partilhamos todos desse desejo, de liberdade!

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    1. eheheheh, nã sei se concordo... é um pensamento bonito, mas o que me espera é morrer sozinho, quer seja num lar, a dormir ou no meio das couves...

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    2. Não se diz que se esta sempre sozinho perante a morte?
      Falava da vida até a esse momento
      ;)

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    3. ah! a vida... gostava de acreditar que tens razão, mas a liberdade só se alcança quando abdicamos de tudo, sonhos e ovelhas incluídos... e o "ser eu" ou muito me engano, ou está em vias de extinção

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    4. "A morte deveria ser assim:
      um céu que pouco a pouco anoitecesse
      e a gente nem soubesse que era o fim..."


      Mario Quintana

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  3. :) vou começar a olhar uma couve coração de forma totalmente diferente ...

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  4. E voltaste e com um excelente projeto, sim senhor.
    Eu odeio mel mas adorava ter abelhas.

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    1. como se odeia mel? podia viver de mel e coentros... que mais odeias tu, para além de tudo aquilo que adoro?

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    2. Não sou assim tão esquisita, é isto e... amêndoas. Também não gosto de amêndoas.

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    3. é o meu fruto seco favorito depois de pistacho...
      nã gosto de coelho, nem pato... e também nã sou muito fã de carne de rena... nem pepino

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    4. é a minha lista completa... imagino que a tua tenha duas páginas :)

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  5. gostei da ideia que depois há sempre alguém do outro lado à espera

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    1. nã sei se estarão, mas estavam quando lá estive e vou com essa esperança :)

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  6. Partir docemente enquanto se dorme parece ser o sonho de muita gente, mas poucos mas parece tão difícil como acertar no euromilhões.
    Abraço

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    1. pior mesmo era acertar no euromilhões e morrer logo de seguida :)
      abraço e boa semana

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  7. O confinamento está a provocar estragos psicológicos mas, é a primeira vez que vejo um post com este título e com este tema.

    Mas escrito de uma maneira tão bonita.

    Sinceramente, não sei como gostaria de morrer. Acredito, isso sim, que isso já está decidido desde o dia em que nasci. E sei que quero ser cremada.

    Não quero que exista um lugar onde as pessoas se sintam obrigadas a ir pôr flôres uma vez por ano.

    Do que gostava era que se lembrassem de mim e falassem de vez em quando, que ficasse nos corações.

    O meu sogro tinha uma horta, que adorava. Foi lá que lhe deu o AVC.

    Só não sei é se ele morreu mais feliz por isso porque acho que ele nem teve consciência. Ou então sim: estava no lugar favorito dele e abalou sem sofrimento.

    O comentário já vai longo mas, tenho uma curiosidade. O "nã" utilizado é calão alentejano ou algarvio?

    Um abraço do Algarve,

    Sandra Martins

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    1. obrigado. nã sei se foi a melhor altura para falar no assunto, e podia ter escolhido um título mais ligeiro, mas o confinamento tem sido uma prova de esforço mental. se aguentamos isto, aguentamos quase tudo :)
      nã sei se já está tudo decidido, já estive para ir e disseram que ainda era cedo, por isso talvez já esteja decidido desde o dia do nascimento. também serei cremado e essa é a única exigência, o resto é indiferente, podem despejar na sanita os restos deste alentejano :)
      abraço

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  8. Quero ter alguém deste lado para se despedir e alguém do outro para me receber. Entretanto se pode ser bem velhinha, mas com a cabeça fresca que nem uma alface, durante o sono de uma noite quente no meu bungallow de praia nas filipinas...pois não me queixo...se não for pedir muito claro =P

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    1. vais estragar as férias de alguém, mas prontos, concedido... próximo!

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  9. A mim não me preocupa muito a partida, o que me preocupa é mesmo a ideia de viver indignamente ou sofrer horrores amarrada a um corpo sem vida. Um repolho e uma ovelha mais o cão, isso seria bom e não estaria sozinha :)

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