gastrocnémio

Se me saíssem pela boca todas as palavras transformadas pelos sentimentos e mastigadas pelo ódio, dirigidas a quem me ofende ou simplesmente irrita, certamente chegaria a casa todos os dias com a cara esmurrada ou algum osso partido. Tudo o que consigo conter, eu contenho e raramente verto. Essa parte eu consigo, o meu problema é o que fica a remoer cá dentro, a azia que me causa. Às vezes são coisas tão simples, tão vulgares, que não devia sequer ficar a pensar nelas, como a falta de um “bom dia” ou passarem-me à frente numa fila. Já pensei começar a meditar, arranjar alguma coisa que me ocupe a mente quando tenho de lidar com o resto da humanidade. Eu não quero ser assim. Mas agora censuro-me por não ter dito ao rapaz sentado na zona da bagagem que saísse e desse lugar às malas que enchiam o autocarro. Agora é tarde, bem sei. Quando subo escadas e a dor no músculo é lancinante, penso nisso, porquê que não disse ao rapaz que saísse dali? O que aconteceu é que uma das malas das moças que riam muito caiu, e estaria tão pesada, que a pega bateu com toda a força na minha pantorrilha e a senti como se fosse uma lâmina a rasgar o gastrocnémio. É claro que mesmo que o rapaz tivesse saído da zona das bagagens, não quer dizer que as moças que riam muito tivessem colocado lá as malas. Mas fiquei a pensar se isto não terá sido uma lição. Na próxima, vou ficar longe das malas dos outros.


Comentários

  1. Eu, não percebo que se levem coisas tão pequenas para casa e não faço meditação para as apagar por cada pessoa que nos passa à frente na fila há outra que nos recebe com um sorriso, a falta de um bom dia também é compensada por outros gestos e a pessoa até pode estar só a ruminar o facto de alguém a ter passado à frente numa fila ou ainda estar presa a um sorriso qualquer... trabalho em cobranças se levasse para casa cada situação em que os clientes são indelicados ou me tratam mal precisaria de muito mais do que meditação. Todos temos dias difíceis p'ra quê acrescentar-lhes essas pequenas irritações?

    Põe gelo na perna e vê um filme que isso passa.

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    1. talvez eu precise de trabalhar num sítio desses :) ou os meus dias são demasiado perfeitos que à mínima cena, eu fico a ruminar ? pode ser isso... mal habituado :)

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  2. eu fico sentida com facilidade, mas não reajo. e se reagir é só para bater com a porta na cara da pessoa. criancice, bem sei. talvez, com o passar dos anos, possa ter algum controlo sobre as minhas emoções. por agora a lapiseira continua a pertencer ao coração.

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  3. Motherfuckers, mesmo... É por isso que eu não deixo passar uma.
    É certo que também poderia ter sido eu a levar com a mala no meu gastrocnémio ou até no calcanhar de Aquiles, mas tinha posto esse moço no lugar. :)

    Queres contratar-me para tua guarda-costas, Manel?

    Beijos, a transbordar de solidariedade humana e cívica! :)

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    1. já recebi muitas propostas, mas essa é original :) estou a imaginar-te, óculos escuros, a empurrar o pessoal no transporte público...
      o que fazes quando nã te retornam os bons dias? e quando as pessoas te empurram porque querem ver aquilo que estás a ver, mas nã querem esperar para que saias? E quando vais à caixa do correio carregado de compras e o vizinho sai do prédio e fecha a porta na tua cara?

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    2. 1º:- Encolho os ombros e continuo a dizer 'bom dia',' boa tarde' ou 'boa noite' , até um dia que esteja mal disposta e pergunto: « ouça lá, é surdo ou na sua terra não se usa saudar as pessoas?»

      2º:- "Calma, espere pla sua vez, sou invisível ou quê?»

      3º:- Dava-lhe um berro: « Ei... seu grande malcriado»

      Nunca mais me falavam? Quem ficaria a lucrar seria eu.

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    3. hoje já disse duas vezes bom dia sem resposta, fiquei a segurar uma porta sem um obrigado e encostaram-me um guarda-chuva a pingar às pernas :) mas estou a conseguir lidar

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