Pocahontas

... ou diário de bordo de um navio de nome incerto e sereias de cimento.

E porque querer escrever nossos infortúnios e acontecimentos de cada dia (pois não passou nenhum que os não tivéssemos) seria um grande processo e causaria mais fastio ao leitor que contentamento (já que as cousas compridas, como afirma o Poeta, costumam ser desprezadas e tidas em pouco, e agradar as breves), não tratei mais que com a maior brevidade que em mim for possível as cousas notáveis que nos aconteceram (que nem foram muitas), assim na viagem como na perdição, e os dias em que foram, usando de toda a verdade que me assiste.

Do dia que partimos do porto a quatro dias, que foram dos de abril, abandonada a tripulação aos comandos da nova Capitã P’Almier, vindo com o mesmo vento de viagem com que partimos, subitamente se mudou, e ventando-nos o contrário do que havíamos. E aqui começaram nossos infortúnios, nos deu um pé-de-vento que nos quebrou o gurupés da cevadeira. Mui nobre mas inexperiente Capitã ordenou que o leme fosse levantado e todo o convés assoalhado de boa madeira de ipê, indo a nau a navegar a todo o pano, sem rumo ou mastro oblíquo na proa.

A dezasseis de abril trovoada rija do lés-nordeste tomou-nos de súbito, veio a ser tão rijo que por a nau vir muito sobrecarregada e não poder aguardar bem a vela, nos foi forçado com começarmos a alijar muita fazenda ao mar. Teve então a Capitã a feliz ideia de mandar erigir uma bonita escadaria em mármore que não levava a lado nenhum, mas facilitava o alívio da carga.

O mar e o vento faziam tamanho estrondo que quase nos não ouvíamos uns aos outros, nem as ordens que a Capitã dava. Neste se levantou um mar muito mais alto, que o outro primeiro, e se veio direito à nau, tão negro e escuro por baixo, e tão alvo por cima, que seria causa de em muito breve espaço vermos todos o fim de nossas vidas. Ainda tentei apaziguar os deuses, atirando borda fora dois ministros que navegavam clandestinos, mas o mar e vento cresciam cada vez mais e andava tudo tão temeroso, com os fuzis e relâmpagos que faziam, que parecia fundir-se o mundo.

Mas o pior estava ainda para vir, a esta perseguição de mau tempo se ajuntou outra de piolhos, porque enquanto andávamos quase nus, trazendo sòmente vestidos uns farrapos por que nos apareciam as carnes em muitos lugares, quis então a Capitã P'Almier que usássemos todos uns vestidos castanhos, última moda sei lá onde, mas ali se criavam tantos piolhos e outras pragas, que visivelmente nos comiam sem lhe podermos valer.
Também da comida nos queixamos, comendo por largos dias somente soja podre das baratas e bagas de goji com bolor mui fedorento, sem haver carne, nem vinho, nem pescado. E as febres eram tão rijas, que em dando à pessoa a desatinava, de maneira que falava e fazia mil doudices e desatinos, moldando sereias em cimento, instalando jacuzzi na sala de crise, uns muito para rir e outros de muita lástima e para chorar.

E cada um dos que estes nossos trabalhos lerem desejará ver o fim e remate de estranhos e novos sucessos e novas intenções de férias por parte de Cuca, a nossa mui crida Capitã, regressada finalmente aos vinte e oito dias de abril com tules e vestidos de princesa, concretizando o meu sonho de um dia ser Pocahontas e saber pintar com quantas cores o vento tem.




Plagiado d' História Trágico-Marítima, relato de naufrágio da nau São Paulo, em 1561 pelo boticário Henrique Dias.




Comentários

  1. Choro, cigano!
    Vales o teu peso em ouro, com mil luas!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. se me venderes podes voltar a ter wi-fi no navio...

      Eliminar
  2. ahahahahahaahhahahahahahah! começo a achar que devia ter votado em ti para capitão, Cigano!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. tu nã digas cosas dessas Flor, olha que se as capitãs nos ouvem nos fazem caminhar na prancha e sem net...

      Eliminar
    2. nada temas, Cigano, se algo acontecer, haverá sempre uma baleia azul por perto para nos salvar :)

      Eliminar
    3. nã sou esquisito com a cor... só nã quero morrer já
      (lamentavelmente só hoje vi que tinhas uma caixa em tua casa...)

      Eliminar
  3. Haja quem te dê o mote, cigano...aí, ergue-se toda a tua esplendorosa veia descritiva e lá vais tu, por esses mares, por outros antes (mal) navegados, navegando de vento em popa!! Brilhante!
    :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. é tudo plágio Janita, nem 10% são da minha autoria :)

      Eliminar
    2. O último parágrafo, já aí estava quando cá vim há um bocado, Manel?
      Acho que o acrescentaste óspois, nã foi?

      Eliminar
    3. nã, está igualzinho desde o início...

      Eliminar
  4. Já tinha lido no lado de lá. :) Muito bom, Manel! Manda lá mais desses ventos coloridos. :)

    ResponderEliminar

Enviar um comentário