béquico

... ou Fernão Lopes livra-me tu desta tosse.


Saibamos o que se deve saber da batalha e com quantos foi posta e como se venceu e quais bichos nela estiveram e quanto tempo durou e que micróbios aí morreram, no qual falamento não cumpre enxertar formosas razões nem dizer algum afeitado, mas chãmente mostrar por ambos os reinos a certa verdade como se passou. Ora sabeis que quantos compilaram histórias de batalhas (ou comuns constipações), deles mais e deles menos, todos em seus livros fazem menção das armas que cada reino consigo tinha, por saber sua quantidade e dar o louvor a quem parecer que o merece; doutra guisa os desbaratados e os vencedores não teriam glória nem doesto. E assim fizeram muitos na história desta batalha a que uns disseram que el-reino de Micróbia trazia oito mil Adenoviridae e outros puseram nove mil; e de Paramyxoviridae quinze mil; e três mil Coronavirus; e de Rinovirusinovirus vinte mil. Outros diziam que eram em soma sessenta mil por todos; outros, que chegaram a cem mil e outros contavam que por uns e por outros era tanta multidão que havia aí cem micróbios para um leucócito do Cigano; e assim outros mais e menos, segundo lhes pareceu ou lhes prouve de escrever. Quando foi notório a todos que el-reino Animalia (não todo o reino mas só o Cigano) lhe ia sair ao caminho e que se não excusava entre eles batalha, apesar de ele próprio se gabar de nunca quedar-se doente, logo todos os leucócitos se foram à pressa para serem com ele na batalha. E não somente leucócitos, mas também macrófagos, neutrófilos, muito muco, uma ou duas aspirinas e dois tonéis de mel de urzes. Destas gentes que os reinos consigo tinham ordenou cada um sua batalha segundo costume de Micróbia que a pôs primeiro a inflamação na garganta e depois tosse de quinze dias. Daí entrou na batalha o reino do Cigano, dizendo às suas gentes que daí a breve espaço havia de cessar e que fossem fortes e esforçados, havendo grande fé em chá de cebola e xarope de cenoura. Mas aos onze dias do mês de fevereiro, nem um nem outro haviam de cessar por vitória, e enquanto uma batalha ainda se travava, uma nova vem a nós com grã soberba e desamor. 

plagiado do caríssimo Fernão Lopes, "Aljubarrota", ajustado a uma constipação do Diabo


Comentários

  1. Estamos a travar essa batalha juntos, cigano.
    Fui atirada ao solo pelas febres...

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    1. Vai passar, palavra desta erva daninha, que não ha muitos dias rastejava irreconhecível, julgando o pior.

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    2. Já pareço mais um cão que gente... mas nã lhe dou mais de uma semana!

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    3. Ah! Fostes vós que me pegastes? Maldição!

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  2. tenho passado incólume por essa triste realidade. espero não apanhar nada só por passar aqui...

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    1. nã tens daquelas máscaras que os chineses usam? olha que...

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  3. Manel, vê lá se descortinas, nesta lengalenga de António Lobo Antunes, algo que te faça passar essa tosse e mandar esses micróbios todos pra longe. :)

    Pachos na testa, terço na mão,
    Uma botija, chá de limão,
    Zaragatoas, vinho com mel,
    Três aspirinas, creme na pele
    Grito de medo, chamo a mulher.
    Ai Lurdes que vou morrer.
    Mede-me a febre, olha-me a goela,
    Cala os miúdos, fecha a janela,
    Não quero canja, nem a salada,
    Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.
    Se tu sonhasses como me sinto,
    Já vejo a morte nunca te minto,
    Já vejo o inferno, chamas, diabos,
    Anjos estranhos, cornos e rabos,
    Vejo demónios nas suas danças
    Tigres sem listras, bodes sem tranças
    Choros de coruja, risos de grilo
    Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
    Não é o pingo de uma torneira,
    Põe-me a Santinha à cabeceira,
    Compõe-me a colcha,
    Fala ao prior,
    Pousa o Jesus no cobertor.
    Chama o Doutor, passa a chamada,
    Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.
    Faz-me tisana e pão de ló,
    Não te levantes que fico só,
    Aqui sozinho a apodrecer,
    Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer


    Será que uma boa tisana e pão-de-ló, acabavam com isso?

    Beijo e as melhoras, Cigano!


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    1. esse era mais gripe... mas tenho a certeza que o pão-de-ló cura tudo :D
      beijos, Janita, e obrigado

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  4. Eu ando doente desde o Natal. Não gosto de mel mas já me deram todo um receituário à base de poncha, água ardente, vinho do Porto...
    Receitas antigas.

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    1. também já tentei afogá-los em álcool, mas o resultado ficou aquém...
      já foste ao médico? desde o natal é muito tempo...
      vai ao médico

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    2. Tou farta de médicos ! E, por coisas mais chatas... Isto passa.

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