sábado, 6 de agosto de 2016

iaque

Abriu o livro a meio e mergulhou o nariz, aspirando o cheiro a pasta de papel e tinta, e todas as vírgulas de duas páginas. A mulher que queria ver o céu sorriu, nunca tinha visto ninguém com vírgulas a saírem-lhe do nariz. Mas o homem que desejara ser vento não recebia um livro novo há muito tempo, tanto tempo que nem sabia quanto. E ficou tão feliz com o presente que nem pensou no quão ridículo seria aspirar vírgulas em público. Saciado agradeceu. Mais tarde, diante de uma lua mínima que desaparecia no horizonte, o homem que já não desejava ser vento falou do último livro que tinha lido e como o cheiro a mofo lhe estaria para sempre associado, apesar de tratar de batalhas, de lutas, de liberdade. A mulher que queria ver o céu voltou a sorrir e por sua vez agradeceu as constelações, os planetas mais brilhantes, saciada de braços gelados, já a lua tinha descido a oeste.

Susie Foster Hornets, pencil, watercolour pencil and ink on paper

no deserto do Atacama, ontem terá sido assim...

8 comentários:

  1. fiquei presa no deserto do Atacama... belíssimo, o universo.

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    1. estive para ir e nã ir... e depois nã fui, mas deixei aqui o caminho :) é lindo mesmo.

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  2. Eu fui ao deserto e regressei para te voltar a ler, Manel.

    Ava-a-que-gosta-deste-Mau-Tempo-daqui-até-ao-céu.

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  3. deve ter sido bonito, no deserto compreendo que com virgulas a sairem-te do nariz e abraços gelados não tenhas tido tempo de confirmar...

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  4. Gosto quando não és Mau Tempo e usas as vírgulas no sitio certo. O deserto então... É para la de lindo

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    1. no nariz :) tenho de lá ir um dia, que nã seja em sonhos...

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