sábado, 15 de fevereiro de 2014

salvo



Finalmente chegou ao fim. Os estragos nem foram assim muitos, mas a protecção civil mantêm-se em alerta. Quando parei na passadeira para o casal de namorados atravessarem abrigados no mesmo guarda-chuva, senti uma infinita melancolia e imensa vontade de os atropelar. Convenço-me que é um dia como os outros, mas não é. Há uma atmosfera saturada de feromonas, faz lembrar o céu azul daquele pesadelo, demasiado intenso. Metade permanecia estática, e a outra parte, separada por uma orla quase invisível, movia-se cintilante e muito lenta, tomando o céu por inteiro. Eventualmente num acto de desespero, na mais medonha das fobias, comete um atentado contra o ego. A vantagem desta coisa dos telemóveis é que podemos sempre usar a desculpa de que não recebemos nada, aquela mensagem perdeu-se na tundra gelada. Mas por que raio logo hoje? A páginas tantas era só para saber como vão as coisas, nem sei se ela sabe do meu paradeiro, nem sabia que tinha o número dela, demorei algum tempo até a situar, valeu-lhe o nome invulgar. 

Terão passado uns três anos, alugamos um bangaló manhoso no norte, não choveu naquele fim-de-semana mas as noites eram reconfortantes e chegavam mais cedo. Quatro casais e uma única casa de banho. Não conhecia ninguém à excepção claro da metade que fazia de mim um casal, todos estavam ou tinham estado ligados a nível profissional, por isso para além de não conhecer ninguém também não tive assunto de conversa nas primeiras quatro horas. Por questões de segurança trocamos números. 

Olhando à distância, era claro que esse fim-de-semana me salvara a vida, restaurando o doce amargo na boca assim que pousei os pés no chão. Mas a rapariga de nome invulgar não tinha qualquer contribuição para o que acontecera. Aliás, nenhum dos restantes intervenientes, podia dizer-se que foi um acto isolado de ascensão espiritual. Voltando ao pesadelo, não sei porquê levantei os olhos em direcção ao céu, como se o sonho tivesse iniciado nesse preciso momento, eu ali, naquela encosta coberta de uma praga de chorões, olhava para o celeste de azul intenso, metade estático, metade em movimento parecendo conter pequenos carneiros aos saltos. Mas o silêncio que acompanhava o movimento é que me intrigava, e demorei até compreender que não se tratava de céu. Era uma onda gigante que se formava contrariando as leis da física, e eu gritava enquanto procurava refúgio. 

Estes sonhos com ondas gigantes acabam sempre bem, ou mais ou menos bem. Pelo menos acordo. Tenho duas fobias, uma é a ondas, cimofobia, já o mencionei várias vezes. O outro é mais estranho, acho que nunca o abordei, mas tenho pavor a títulos extensos, daqueles que ocupam mais que uma linha. Não confundir com Hipopotomonstrosesquipedaliofobia, isso não tenho. 




vá... agora vão todas a correr escrever títulos extensos a ver se não fujo.

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