segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

idílico



... ou o sonho das cavidades futuras 




Num espaço adimensional quase subtraído de luz, existiam cavidades futuras dispersas pelo piso, janelas circulares distando sensivelmente metro e meio entre si. Os círculos conectavam por um cilindro escuro de igual diâmetro a uma dimensão diferente, atravessando perpendicularmente as cordas do tempo. Recobrindo cada janela circular, um material translúcido idêntico ao vidro, mas resistente como aço, impossível de partir ou riscar, permitia ver o que se passava do outro lado. O aspecto mais peculiar destas janelas é que eram sensíveis ao pensamento do homem que vivia naquele espaço. Bastava que pensasse em atravessá-las e a superfície translúcida esfumava-se no ar, e então o homem afundava-se no líquido morno que preenchia o cilindro negro, saindo seco no outro extremo. Outra anomalia igualmente inexplicável pelas nossas leis da física, era o homem deixar aquele espaço pelos pés e chegar ao outro lado pela cabeça, no tecto da outra sala, caminhando sobre ele como se fosse o chão. 
O homem que ali vivia tinha uma cavidade futura preferida, era raro o dia que não descia nem que fosse só por uns minutos, sempre depois do almoço. Terminava o café, deixava a loiça na pia, arrumava o individual de pano na terceira gaveta e descia. No outro lado encontrava quase sempre o mesmo sujeito, sentado a uma mesa iluminado por uma janela aberta alta, suspensa como uma tela de claridade azul. À sua frente ocupando quase toda a mesa descansava uma imensa Adler, enquanto rabiscava qualquer coisa num pedaço de papel. Reconhece-a do passado, de linhas pouco harmoniosas contrastando com a águia estilizada de asas abertas pairando sobre o teclado. 
De fora chegam os guinchos das gaivotas e dos ostraceiros no revoar das ondas, de vez em quando levanta o olhar da folha e finta o horizonte, como se esperasse a inspiração na subida da maré. O homem que escreve não o vê caminhando pelo tecto, deslizando como um verme pelas paredes despidas, pairar sorrateiro sobre os seus ombros para ler a primeira linha que pende da máquina, apagando-a de seguida da memória.



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