quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

quarta

Ajeitei o cocar de penas vermelhas no topo da cabeça. Esqueci que o tinha e ao inclinar-me sobre o caixote do lixo, desceu pela cabeça, turvando-me as ideias por breves instantes. Era um pequeno papel, amarfanhado com força, distinguível dos demais pelo logotipo colorido da empresa de transporte. Alisei-o sobre a secretária com todo o cuidado, descobrindo entre os dados do remetente e destinatário, um traço azulado, risco ténue manual de caligrafia rápida, um sarrabisco indecifrável do nome.

Recostei-me desanimado.

Passara toda a manhã de vigia ao átrio, um gigantesco moai em pedra maciça, sentinela estático e expectante pelo seu regresso, desta vez na porta certa, entregando-me apenas o seu inestimável e copioso sorriso. Mas dela nem sinal, e entre um naco de carcaça com panado e alface, resgatava ao esquecimento pormenores que a mente teimava suavizar, cobrindo com o seu manto precavido os trilhos rasgados, assim como o mar alisa as pegadas perecíveis no mineral granulado.
Admito que não me lembro da cor dos olhos, ou do cabelo, a pele clara tingida de veias, mas apenas isso. Talvez seja alta, ou então baixa e pareceu alta, as mãos pequenas e delicadas quando me auxiliou na queda, mas não consigo precisar quão extensa é a sua linha da vida. O seu perfume imiscuiu-se de vez em tantos outros mornos odores, e a sua voz um espectro, uma alma de outro mundo. Talvez se a ouvir de novo... como gostava de a ouvir, de a ver sorrir, bastaria isso para saber que era ela… sim, o sorriso permanece inalterado, fossilizado na fase mais obscura e inacessível da memória, estanque à purga impiedosa do consciente.

Rodei a guia amarrotada sem esperança, como o réprobo roda no eterno inferno, "Statuam te contra faciem tuam"* pensei, alumiando-se por encantamento os caracteres tingidos. Luísa.



*"Arguam te et statuam illa contra faciem tuam" (SI 50, 21): - Vou chamar-te a julgamento e lançar-te tudo isto em rosto

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