sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

belígero

Deixei que escolhesse a mesa mais distante e sentei-me à sua frente, pousando as duas chávenas de café lado a lado, ambos curtos, sem açúcar, cobertos de uma fina pelicula de um cremoso bege.
O que é que a criatura tem contra mim?
Isso foi uma pergunta retórica?
Não Mau-Tempo, ouve com atenção, limpa o cerume e explica-me o que é que a criatura tem contra mim…

Respirei fundo e desejei que me crescessem os braços, pelo menos meio metro, e desde o pulso até ao sovaco se desenvolvesse uma membrana ligada ao tronco, permitindo-me levantar voo silenciosamente sem que ela reparasse. Ai Beatriz, se tu soubesses o quanto estimo cada café que partilhamos, cultivando em sonhos que um dia não seja nesta ou noutra mesa, mas no calor limpo da tua cama!
Comecemos pelo óbvio, a que criatura te referes?
A sonsa da Inês, e voltou a cabeça para o extremo do refeitório, onde a dissimulada criatura conversava e gesticulava jovialmente.

Um microfone desceu do tecto, iluminado por um foco de luz. Bebi a última gota de café antes da borra escorrer pelas paredes e levantei-me compondo a camisa, tomando o lugar no centro do ringue.
Bem-vindos senhoras e senhores ao maior evento desta temporada! Na categoria de peso pluma e unhas compridas, aqui mesmo neste refeitório convertido, tenho a honra de apresentar no canto vermelho, sessenta e quatro quilos de pura tentação, com um recorde pessoal de 35 vitórias, 27 das quais por KO, natural da Zambujeira do Mar, por favor o vosso aplauso para a poderosa e deslumbrante: Beatriz!

O foco desviava-se e incidia agora no rosto sério e muito belo de Beatriz, de braços no ar saudando o público, pouco confiante. Quase todos os dias nos sentamos frente a frente, nem sempre conversamos, mas descobrimos que temos muito em comum, e o que não tínhamos decidi passar a ter depois de a conhecer. É uma amizade simbiótica, uma associação recíproca que nos permite viver com benefício, segundo o dicionário. Não sei se ela tem consciência disso, mas estar na sua companhia torna as outras mulheres mais interessadas em mim, em troca, homens sem a coragem necessária não se aproximam dela. Há quem lhe chame selecção natural…

A sua oponente no canto azul, sessenta e seis quilos de sonsice, com um recorde pessoal de 26 vitórias, 19 das quais por KO, natural de Arruda dos Vinhos, o vosso aplauso para a hipócrita criatura: Inês!

E lá no extremo canto, Inês erguia as luvas no ar, e o público gritava o seu nome…
Não conheço bem a Inês, nunca nos sentamos frente a frente a degustar um café, trocamos bons dias e boas tardes, mas nunca me senti atraído pela sua órbita gravitacional, farta em satélites. É popular a Inês, tem mais de trezentos amigos virtuais, mas aparentemente não possui nada que eu possa querer, nem sequer a companhia.

Porquê que achas que ela tem algo contra ti?
Nunca reparaste? Ela chega e cumprimenta toda a gente, um a um, e depois passa por mim como se eu fosse invisível… odeio isso, o que foi que eu lhe fiz?
Quase me atrevi a perguntar se não tinha espelho em casa, qualquer superfície lisa que a reflectisse, era preciso ser cego para não ver porquê que a criatura a tratava com indiferença. No entanto o que me causava maior espanto era a preocupação de Beatriz, e não a atitude infantil da sonsa Inês, adequada aos seus arrogantes vinte e tal anos.

As duas entreolharam-se, e assim que a sineta ecoou pelo refeitório, aproximaram-se do centro. Inês encorajada pela multidão, aplicava várias sequências de golpes à cabeça da bela Beatriz. Solta o jabe, gritei, lá do canto vermelho, ansioso, agarrado à toalha, temendo pela sua saúde. Mas que raio, Beatriz, levanta esses braços, esquiva-te, esquiva-te! já não tens idade para pensar que todos gostam de ti... anda, acerta-lhe!

Provavelmente não fizeste nada. Disse-lhe, separando com cuidado as palavras, limpas de espinhos e pragas. É só uma miúda mimada, não penses mais nisso. Mas o sorriso não reaparecia nos traços de Beatriz, continuava num duelo interno, aguentando-se até ao final do primeiro assalto!

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