afiadeira

Ahhhhh! Está calor, não está? Disse o agente depois de um salpicado e sonoro arroto que convocava o empregado a aparecer com a segunda rodada. A Menina, o que vai beber? Espere, já sei, uma cidra não é mesmo? Tétisq queria muito levantar-se e esquecer que tinha perdido metade do seu dia de folga por causa de um cartão de cidadão, mas a sua curiosidade estava tão aguçada pelo agente Ò, que ele próprio parecia uma afiadeira com braços e pernas. Nada lhe estava a correr bem, primeiro tinha corrido para o autocarro errado que ligava o Palácio a Tovim, e dava uma volta desgraçada em sentido contrário, ficando muito mais longe da Agência do Ò, o que a tinha feito percorrer quase seiscentos metros de obras que não tinham sido inauguradas a tempo das legislativas. Depois tinha estado à espera daquele personagem que no mínimo se podia dizer que era estranho e que acabava de emborcar a terceira imperial enquanto o narrador tirava os óculos para coçar um olho.

A conversa não retomou logo de seguida aonde havia ficado. Acontece quando há comida que fica entalada nos dentes e agentes que deixam uma unha excessivamente mais longa no dedo mindinho para procederem à sua extração, mesmo que isso possa chocar a jovem sentada à sua frente. Não havia palavras suficientes no seu dicionário para descrever o quão aterradora aquela refeição estava a ser, no entanto, Tétisq não arredava dali, e com uma coragem impressionante, aguentara estoicamente vinte minutos de mastigação de carne mal passada numa boca amplamente aberta de onde ocasionalmente também saiam piropos. Pior só mesmo imaginar toda a cena dublada em inglês pelo José Castelo Branco.

Podemos voltar ao assunto que me trouxe aqui? Insistiu Tétisq, a quem a falta do cartão de cidadão estava a provocar uma imensa perturbação na sua própria identidade. O caso, pelo que a mim me diz respeito, está praticamente resolvido. Disse o agente, enquanto adicionava duas saquetas de adoçante ao seu abatanado. A Menina não fuma, pois como já tive oportunidade de observar, tem um impressionante esmalte branco e os seus dedos são pálidos, mas nada amarelos, logo não terá deixado o cartão junto da máquina de venda. Também não foi de férias recentemente, pois falta-lhe aquele tom de pele saudável de quem esteve esticado ao sol em algum recanto do mundo. Como não conduz, e isso verifico pelo seu calçado confortável e com lama, posso atestar que não o perdeu numa operação stop, nem tão pouco foi numa dessas saídas à noite, porque ultimamente adormece em qualquer sítio e a cama continua a ser o local preferido. Tétisq continuava surpreendida com toda a informação que o agente tinha sobre a sua pessoa, era como se ele tivesse acedido ao seu processo pessoal, onde está contida toda a informação relacionada com os seus hábitos, os seus gostos, a sua rotina esmiuçada em horas e minutos desde o dia do seu nascimento. Era muito mais do que ela própria sabia sobre si, o que a fez de repente perceber que na verdade ela não era quem pensava ser. 

Quando o agente se preparava para concluir a sua dissertação, Tétisq pôs-se de pé num salto e olhando o agente profundamente nos seus olhos raiados e escleróticos bastante vulgares, disse-lhe: Era um caso singular e todavia peculiar. Como é que eu não vi isso logo no início? O agente sorriu e um dos dentes estava coberto de grelos. A Menina não leu o texto, estava lá, mas a Menina saltou essas linhas e começou a ler onde se falava no almoço. Então é essa a resposta, não é? Disse Tétisq,  interrompendo o agente. Eu nunca perdi o cartão do cidadão, ele é que me perdeu a mim. 


para que isto faça algum sentido (e mesmo assim...) é preciso começar por ler aqui este excelente desafio insano da Flor com inspiração na frase da Tétisq.

versão iscas da Noname
versão filetes do Dom Xilre 

Comentários

  1. E báu! O meu afilhado está de volta. Só precisava de ser um tantinho espicaçado :-)
    Boa malha Manel
    Beijinho da madrinha

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    1. o fim tá uma cena assim pro como quem diz em cima do joelho, mas a pressa é sempre inimiga da articulação... um gajo quer correr e se doer, nã vai longe

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  2. Ahahahahahahahahahahahahahahah ahahahahahahahahahah!!!!

    Portanto, o Xilre deu-lhe classe, tu transformaste o gajo em mitra!!!

    Tão bom, Manel! Mil obrigadas, a sério.

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  3. Parabéns, Cigano!! De ti não esperava menos... :)
    O agente do Ó não prima pelos bons modos, é deselegante, come como um javardo, mas tem a eficiência de um Lord...Adorei!!
    Aceitas um beijinho?


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  4. Meeedo! Como é que sabes que eu apanho muitas vezes o 7? A agência do Ó é na Solum? O agente, observou que não fumo, onde?
    Tens noção de que está tudo muito bom mas fiquei uma certa impressão de que posso ter um stalker? A única coisa que me descasou foi quando o agente errou naquele palpite do sono, ultimamente não consigo dormir em nenhum lugar, nem na cama.
    Muito obrigada por ajudares a desvendar este mistério, apesar da comichão que te fazem os óculos.
    Na minha terra chamava-mos afia ou aguça à afiadrira.


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    1. *descansou .
      Devo ter muito mais erros mas perdiem-me que estou privada de sono.

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    2. afiadeira é muito mais bonito, e como eu digo ainda é mais bonito. deu imenso trabalho procurar pelo 7, se um dia precisar de andar de autocarro em coimbra já sei que nem vale a pena olhar para o mapa com as linhas. aquilo parece um novelo. espero que encontres o teu cartão do cidadão. já te disse que uma vez andei um dia inteiro com um cartão multibanco nas sapatilhas, com elas calçadas?

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    3. Serás um fauno de cascos duros?

      Quando precisares de andar de autocarro em Coimbra, perguntas-me como fazer.

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    4. dizem que tenho mais que uma afinidade com o demo... mas sem cascos duros, os meus pés são hipermegasensíveis.
      a última vez que estive em coimbra andei de trotinete e quase fiquei debaixo de um carro...

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  5. mais um belo conto, boa escrita, bom enredo, efeito surpresa, criatividade... tudo e tudo à conta de um cartão de cidadão...

    Abraço

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    1. os créditos são das personagens, eu limitei-me a ver percursos de autocarro e inventar possíveis causas de como se perde um cartão...

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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