pêssego
Quando entrei, a fila já era mais longa que o supermercado. Não faz muito sentido, porque na verdade, o espaço é tão pequeno que não lhe posso chamar "supermercado". Será mais uma loja, ou só mercado. Tem bastantes produtos, é um facto, e com muita variedade. Está tão cheio, que existe pouquíssimo espaço para os clientes circularem. Foi por isso que reparei no indivíduo com a criança em frente aos frescos. Alias, precisei que eles saíssem, para poder chegar aos iogurtes. Não são de cá, falam uma língua mal mastigada, mas tão baixo, que não consigo perceber. Ele parece mal disposto, responde torto, está sem paciência, mas eu distraio-me com a variedade de iogurtes e deixo de lhes dar atenção. Quando chego à caixa, a fila já aliviou um pouco. Dei basicamente três passos, talvez quatro. É a distância da loja em comprimento. À minha frente está o mastigador de palavras que entretanto se põe de parte e fica a olhar para o telemóvel, enquanto a criança franzina volta em mais passos que eu, ao interior da loja. A menina da caixa, de quem ainda não falei, mas que é a única razão de aqui estar, é ela uma deusa disfarçada de funcionária de caixa. Primeiro olha para o mastigador estranho, depois para mim. Deve aturar tolinhos destes de hora a hora. Já estou a derreter por dentro, evito engolir em seco e em simultâneo babar-me. Ela resolve dizer: Próximo! Avanço, pois o mastigador continua a olhar para a merda do ecrã como se não conseguisse fazer outra coisa na vida. "Penso que sou eu" respondo. Ela anima-se por ouvir a sua própria língua, acho, e diz: "ficou ali parado!" porque tem a certeza que o mastigador não nos entende, ou que vai continuar a fazer de conta que não está ali. A criança regressa e saem. "Não percebi o que aconteceu" digo-lhe. Ela volta a sorrir e diz: "Melhor assim até." A nossa conversa não faz qualquer sentido, ou faz, num mundo muito particular em que eu não sou eu, mas sim uma das minhas personagens. Claro que não me importava de ficar ali a trocar observações com aquela divindade o resto do dia, mas a fila continua a crescer. Pego nos iogurtes de pêssego, que devem ser os piores da loja e guardo-os no saco, sem coragem de a voltar a olhar nos olhos. É curioso que nem sequer gosto de iogurtes, nem de supermercados, mas tinha de levar alguma coisa.

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