solidão
Tem aparecido quase todos os dias desde que voltou. Senta-se e fica a ver e a falar enquanto trabalho. Muitas vezes já nem ouço o que diz, porque o caudal é de um rio bem largo. Outras vezes sou eu que falo, e depois ele interrompe com um assunto completamente despropositado. Mas até nem me importo que ele interrompa, também não me importo que não preste atenção quando falo, porque ao fim e ao cabo faço o mesmo. Um destes dias interrompeu-se a ele mesmo e cortou o sentido do imenso fluxo de palavras que lhe escorriam pela boca para se lamuriar. "Estou amaldiçoado" disse, "nunca vou ter ninguém". Não consegui dizer nada simpático, talvez porque compreendo que seja difícil alguém aguentar tanta palavra, tanta queixa. Também estou sozinho, no sentido de não ter uma companheira, mas acho que estou bem, pelo menos não me queixo, mas se calhar nunca estive sem ninguém e o problema dele é estar mesmo sozinho. A solidão deve ser assustadora. Acho que nunca a senti. Mesmo em criança era capaz de me entreter sozinho durante horas, diziam os mais velhos com admiração, e talvez isso acontecesse porque era algo que me dava prazer. Ter coisas para fazer, rodear-me de livros, animais, imaginar cenários, diálogos. Mas posso estar completamente iludido, posso estar a falar de algo que realmente não faço a menor ideia do que seja. Nunca terei pensado muito no assunto, admito, para mim a solidão será algo assim no limite, tipo uma hecatombe que extermine toda a humanidade e tenha de sobreviver completamente sozinho, como o gajo na ilha que acaba a falar com uma bola.
Lembrei-me das palavras do "amaldiçoado" precisamente porque ontem terminei o "Vaim" do Jon Fosse e a sensação que me ficou é que talvez a maioria das pessoas prefiram ficar com alguém que nem sequer gostem muito, do que ficarem sozinhas. Mas pode nem ser isto, porque lá está, a solidão não é o meu forte. Eu sou mais bolos e livros. E este livro é bom, é daqueles que me fica o gosto por dias. Gostava que o meu colega o lesse, em vez de passar o tempo todo a choramingar pieguices, e depois podíamos trocar impressões sobre todas as situações bizarras, principalmente a parte da linha e da agulha, e isso talvez lhe desse esperança de encontrar uma Eline como a do livro. Sim, sim, era exatamente isso que ele precisava.


Há muita solidão no livro(e fora dele) mas nem sei se ela passa realmente quando as pessoas se juntam ou se passam a ser só solidões acompanhadas. Mas a forma como o amor se sente, mostra e vive também é influênciada pela cultura e ali nada parece doer mesmo, há uma aceitação das coisas que para nós, latinos, é estranha. Deve ser da neve e do mar gelado. Mas ao mesmo tempo o que parecem querer em última instância é só contacto humano. E apesar de compreender e partilhar o que diz sobre a solidão e a forma como a sente, creio que o contacto humano é algo imprescindível à vida. Vá, dê lá um abraço a esse colega chato ou vá com ele beber um copo ou leve-o à horta a apanhar uma couve...
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