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Dois meses antes, em meados de outubro, começaram os preparativos para o jantar de Natal real. Os convites foram endereçados aos membros da família, sem esquecer nenhum duque mais caquético, ou  baronesa desprezada. Tudo ostensivamente grandioso, era o desejo de Dom Trovisco. Um colossal abeto de plástico com mais de sete metros de altura, foi montado no grande salão de teto abobadado. Milhares de luzes ofuscavam a vista e gastaram pelo menos um rim de eletricidade ao Conde de Lagareyro. A decoração opulenta do falso abeto, incluía ricas fitas de veludo (vermelhas, verdes e azuis), ornamentos dourados como pequenas carruagens e brasões reais, figuras de madeira de esquiadores e anjinhos balofos e ainda algumas bolas de vidro, criando uma atmosfera luxuosa e grandiosa, a fazer lembrar as celebrações palacianas. Guirlandas douradas enfeitaram a grande escadaria do palacete e milhares de velas vermelhas encheram a atmosfera de fumo. Até as varandas e todas as portas, foram decoradas com coroas de azevinho e alecrim verdadeiro.

O jantar formal ocorreu na véspera de Natal, seguindo o antigo costume real, de influência alemã, que remonta à época de Ferdinand August Franz Anton Koháry von Sachsen-Coburg-Gotha, mais conhecido por D. Fernando II, Sua Majestade Fidelíssima, segundo marido da Rainha D. Maria II. A noite começou com aperitivos. Por essa altura os convidados já tinham trocado pelo menos cinco vezes de roupa, mas quando o jantar foi servido, todos trajavam de gala A mesa de jantar foi colocada com as tradicionais toalhas de linho, o faqueiro de prata polido, o serviço dourado da vista alegre e uma catrefa de copos de cristal. O menu era o mais tradicional possível, sendo a lagosta acompanhada de caviar e umas tostinhas digestivas. O conde mandou servir do melhor champanhe e até ligou as lareiras elétricas para os convidados não congelarem.

Após o jantar, a família reuniu-se junto ao grande abeto e dando seguimento à tradição de D. Fernando, Dom Trovisco vestiu-se de S. Nicolau e distribui os presentes. As crianças estavam aterrorizadas com a figura do velho gordo, com longas barbas de algodão a desfazer-se, mas com o frenesim dos presentes logo o esqueceram e só pensavam em rasgar mais um embrulho. Os presentes pareciam não ter fim, e até os colaboradores receberam pequenas lembranças das mãos do próprio Conde.

A noite só terminou depois do bufê noturno, descrito como "ainda mais elaborado" do que a própria refeição, apresentando carnes frias fatiadas, salmão fumados e leitão assado com recheio picante. A maior parte dos convidados começavam a subir aos seus aposentos, quando se iniciou a habitual discussão familiar de natal entre o Marques e o Conde. Por detrás das portas, os colaboradores ouviam os insultos do Marques intercortados pela presença do charuto na sua boca. "Esquerdalha" foi o que entenderam. O Marques insultara o Conde chamando-lhe "esquerdalha"! Este insulto era novidade, pensaram, uma inovação. Em resposta só se ouvia as gargalhadas do Conde, muito altas, demasiado altas e um pouco loucas, a ecoarem pelo palacete em silêncio. 


Gravura de D. Fernando disfarçado.


Comentários

  1. Sabendo eu, que sou plebeia de boa memória, que Dom Trovisco, Conde de Lagareyro, são uma e a mesma pessoa, ou seja, o meu querido ex- criador de ovelhas, hoje, quinteiro onde abundam galináceos, especialmente galinhas, onde nascem pintainhos sem galos haver, quiçá, por inseminação artificial, dizia eu, neste já longo parágrafo, possa ser possível a coexistência de árvores artificiais com tapas de ovas de esturjão, vulgo caviar, em festarolas de esquerdalha... :)))

    Tenho mesmo que terminar esta dissertação, pois não encontrei meio de dar fim ao parágrafo, merecedor de constar no Guinness Book do parágrafo mais longo.

    Beijos e abraços, moço mais lindo e melhor do mundo! :-)

    PS- quer-me cá parecer que as prendas de Natal dessa horrível figura de pau em riste, era partir as pernas das criancinhas desvalidas. Malvado!

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