voagem

A mulher surpreendera-o. Não o assustara porque ele raramente se assustava. Tinha para si que com o tempo se tornara quase transparente, um assombrado sentido apenas pelas crianças e pelos animais que vogavam ao seu encontro. Os donos dos animais e das crianças assustavam-se frequentemente e ainda pediam desculpa. Não esperava que alguém aquela hora ali estivesse. Estava com pressa. O céu tornara-se a cobrir e sentia a chegada da chuva nos folículos capilares. Primeiro cumprimentou-o, depois disse e ele não estava nada à espera disso: acho que nos conhecemos. Ele olhou-a com os olhos. Não da mesma forma que olhara a primeira vez, naquele relance que se vê mais com os outros sentidos do que com os olhos, e porque olhar diretamente pode ser mal compreendido. Tinha a idade perfeita, a altura ideal, o tom de voz certo a partir do momento em que lhe dissera “acho que nos conhecemos”. Sim, acho que sim, disse o homem sem qualquer referência ao nome ou aspecto daquela mulher. Sim, parecia-lhe tudo demasiado perfeito, mas deixou-se ir ao sabor da dúvida. Ela continuou a descrever as circunstâncias em que se teriam visto pela primeira vez. O cabelo, ela tinha mudado o cabelo. É isso, colaborou o homem que continuava sem qualquer pista. A mulher caminhava ao seu lado, conhecendo o destino que traçara para o homem muito antes de este ter ali chegado. É a palha, explicou a mulher, ando para lhe perguntar onde foi buscar essa ideia. Não sei, alguém me disse, mas não lhe sei dizer exactamente quem. A verdade é que tem resultado. Sim, sim, claro que resulta, é uma excelente ideia. Mas eu não tenho palha. Explicou a mulher. Venha comigo, venha, pedia a mulher ao homem que tinha pressa em fugir da chuva e nem reparara que as nuvens já há muito rumavam para leste. A mulher falava e falava, repetia e tornava a repetir um rio de informações, e o homem esgotava o sim, sim e pois está muito bem, sem saber ao certo onde aquilo ia desaguar. Talvez ela estivesse nervosa e por isso falava tanto, mas era bom porque tinham assunto, pensava o homem enquanto tentava lembrar-se da última vez em que estivera com uma mulher  num momento de intimidade. O cabelo, não se lembrava de como era dantes, mas o cabelo parecia ter vida, agitava-se revolto e brilhante. Era uma mulher bonita, com sulcos e manchas, rosada e macia. E falava das ervilhas, dos alhos, de como semeava as alfaces em casa e depois as transplantava para ali, se o tempo ajudasse e os caracóis, esses devassos que lhe trincavam as couves, mas ela deixava. Era ela e eles. E o homem sim, sim, pois. O telefone interrompeu a meio um sim. É o meu marido, anunciou. Já vou, estou a ir. Adeus. Adeus, disse o homem, voltando à sua terra, ao seu tempo, à palha e às estacas. O sol brilhava e aquecia toda a vida, com exceção daquele ser transparente, assombrado. 





Comentários

  1. Hoje atirei os caracóis e lesmas que encontrei para a horta da vizinha. Não digas que vão voltar. Já mo disseram duas pessoas...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. depende da força com que os atiraste :D
      também já te disseram para colocar casca de ovo moída na base das couves?

      Eliminar
    2. Já... E eu tenho muitas...

      Eliminar
    3. Que inveja que tenho de vós...quero um pedaço de terra!
      ~CC~

      Eliminar
    4. só tenho um pedacito, quase nada, mas um luxo nos dias que correm... bem sei :)

      Eliminar

Enviar um comentário