doméstico

Mrs Mahler discute com o companheiro ao telefone à minha frente. No início está furiosa, mas depois a ira desagua num oceano de desânimo. Os olhos enchem-se de lágrimas e a voz desfalece um pouco. Só apanho algumas palavras, mas quase aposto que a altercação está relacionada com a divisão de tarefas domésticas. Ele é um nabo. Não quero interferir, mas custa-me vê-la assim tão triste.
Quando falam em divisões de tarefas domésticas parece que falam de trincheiras e campos minados. Ele no fogão, ela na loiça e na roupa, fazem as pazes ao fim de semana e unem esforços na limpeza geral e nas compras para a casa. Já sugeri trocarem tarefas, ou fazê-las juntos, mas parece que nenhuma das partes envolvidas quer ceder território conquistado. 
Quais eram as tuas tarefas quando estiveste casado? Pergunta Mrs Mahler, enxugando as lágrimas num lenço com padrão de girafa. Ah! Que vergonha! Despejava o lixo, comprava o pão ao domingo e levantava a mesa. Agora compreendo que as minhas tarefas eram mínimas, aliás eram tão mínimas que ela nem sentiu a minha falta. Deste lado da barricada, foi uma aprendizagem difícil. Muita roupa branca ganhou novos tons, diversas refeições esturricaram de forma permanente no fundo dos tachos, mas consegui um mestrado em programas rápidos e económicos em máquinas de lavar roupa e doutoramento em peças estranhas do aspirador. Basicamente foi necessário experimentar fazer todas as tarefas para compreender que não havia duas ou três tarefas domésticas, mas sim muitas e que ela nunca reclamara pela ajuda insignificante que eu dava. Agora olhando para Mrs Mahler e os seus olhos tristes cor de amêndoa, compreendo que o desequilíbrio de dedicação tenha contribuído para o desgaste da relação.


Comentários

  1. Ahahahahahahahahahahahahahahhahahahahhaahah!

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  2. Com esses 9 bracinhos, não te custava nada...

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  3. Essa personagem, pode fazer-nos crer que é tu , mas não és tu...!
    Tu sabes fazer tudinho das lides domésticas, desde tratamento das roupas, às limpezas, passando pela cozinha.... :)

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    1. sei fazer tudo, mas nã fica como quando a minha mãe o faz :) ou falha-me algum segredo, ou nã estou a dar os 100%...

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  4. O teu problema começa precisamente por achares que devias dar ajuda quando na verdade devias partilhar as tarefas domésticas também. Muito me surpreende o teu machismo patriarcal nisso! Não o esperava de todo!!!
    Não se trata de ajudar porque essa responsabilidade não cabe apenas a um. Trata-se de fazer porque tu também vives naquela casa. O-D-É-I-O essa expressão do ajudar! É tão desigual. Eu não preciso de ajuda de nenhum homem para fazer nada. Eu preciso que ele assuma a responsabilidade da casa onde vive porque eu não empregada dele!

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  5. É bom que tenha percebido que fazia muito pouco e que isso pode ter contribuído para o desgaste da relação, isso acontece em muitos casos, é parvo que as guerrilhas domésticas possam estragar o amor, mas acontece...e os quotidianos são por vezes pesados. Agora que sabe fazer tudo, está pronto para outra e não se preocupe com não saber fazer como a sua mãe fazia, isso já lá vai e cada um faz como sabe e pode.

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    1. pronto para outra :)
      com as exigências do "mercado" actual, nem com carta de recomendação...

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  6. Tão bom, o vídeo. Benditos tempos modernos. Ahahaha....

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  7. E Mrs Mahler viu o vídeo? Fartava-se de rir e ficava mais descansada.

    Por aqui o marido viu e riu. Mesmo assim, acho que vou ter que esperar até ao ano 2050, pela invenção de um robot tipo Transformer, ora cozinha, ora lava, ora engoma, comandado através do telemóvel ou do comando da televisão. Para as outras tarefas, tipo pagar contas, dar leituras, lembrar da inspecção do carro, existe " Eu Robotina".

    O Sr Cigano não precisava de ter partilhado o mau tempo, não era preciso tanta generosidade!

    Um abraço do Algarve,

    Sandra Martins

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    1. acho que nã desenvolvem mais máquinas nas tarefas domésticas porque poucos homens as fazem... mas já era tempo de algumas mudanças...
      sou assim, um mãos largas no que toca a partilhar mau tempo :) é um prazer
      abraço

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  8. Giro o vídeo.
    Felizmente que os tempos mudaram. Lembro de em mil nove e troca o passo quando era criança, a minha mãe destinar o trabalho que eu e a minha irmã tínhamos de fazer em casa. E o Arménio? perguntava eu. O Arménio é rapaz, dizia-me a minha mãe. Não é nenhum maricas para fazer essas coisas. E o pior é que pese toda a evolução nos costumes nos últimos 60 anos. por aquilo que oiço, ainda há gente a pensar assim.
    Abraço, saúde e uma boa semana

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    1. há muita gente ainda a pensar assim e nã são só os machos latinos... ao contrário do que se diz... mas também, as exigências da limpeza nã são as mesmas em todo o lado... pergunto-me quem estará no caminho certo
      abraço, boa semana, muita saúde

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  9. Eu cá acho que, com a tua próxima companheira de vida, devias chegar-te à frente e fazer tudo... sozinho... durante uns bons tempos. Só para dar uma reequilibrada o 'desequilíbrio de dedicação' que parece ter existido no teu casamento anterior. É o que costumo chamar de Lei da Compensação, de que já fui falando, amiúde, por diversas vezes, lá no meu casebre. ;D

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    1. eheheheheheh, e eu até fazia, já o disse antes por aqui, com excepção das compras... nã gosto de tratar das compras

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  10. O video está brutal., não me importava que viessem todos esses utensílios :D:D
    Não havendo aparelhómetros, Cá em casa, ele escolhe, ou partilha as lides domésticas ou tem trombas e mau feitio uma serie de dias. E noites :D:D

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  11. Ia jurar que tinha feito aqui um comentário....

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