passado

“um post por dia até ao fim do corona" dia 24

Não a reconheci a primeira vez que ela apareceu naquelas fotos antigas. A imagem dela teria sido apagada da minha memória e não era mais do que uma estranha sentada ao meu lado, num distante jantar de aniversário. Ampliei-lhe o rosto e um desconforto instalou-se sob a pele. A nossa história nunca pediu um primeiro dia, pelo menos nenhum dos dois foi capaz de nomear um. Não foi no primeiro dia de aulas, ela veio transferida e andou de turma em turma, até cair dois lugares à minha frente. Mas não me lembro de grande coisa, só da pasta de couro gasta com duas fivelas que ela carregava pela mão. Depois quis o destino que ficássemos juntos nos trabalhos de laboratório e a química acontecia dentro e fora dos tubos de ensaio. Pelo menos era o que eu pensava, até que ela disse que precisávamos de falar. Foi como um murro no estômago. Estávamos sentados no chão do pátio da escola, lado a lado, encostados à pedra quente do edifício, quando ela me disse que estava apaixonada pelo Vasco e que não sabia como lhe dizer. É curioso como me recordo bem da sensação de ficar atordoado, nem tanto por ela confiar em mim para me dizer que gostava de outro, mas por nem suspeitar que eu gostava dela. Encorajei-a a contar-lhe, contra toda a minha vontade, engoli o amor-próprio e o ódio ao Vasco e disse o que se diz a um amigo. 
O destino quis mais uma vez, uns anos depois, quatro talvez, que os nossos caminhos se cruzassem. Foi no verão, durante as férias, fazia uns biscates para pagar os estudos, viajando de terra em terra para montar e desmontar palcos. Foi ela que me viu e me chamou. Estava com uns amigos estrangeiros, todos aperaltados, desenquadrados daquele ambiente de festa de aldeia. Ela abraçou-me, apesar de estar sujo e suado, sem medo de macular o vestido claro que usava. Lembro-me bem desse vestido e do efeito que provocava contra o tom luminoso da sua pele. Cruzamo-nos várias vezes noutras festas durante esse verão, por vontade dela, soube depois. Passado um ano estávamos a viver juntos e pouco tempo depois casamos, desaconselhados por toda a gente. 
Agora se passar por ela na rua, provavelmente não a reconheço. Tenho mesmo dificuldade em me lembrar exactamente da cor dos olhos. É como se alguém tivesse vivido esses anos por mim. 





Comentários

  1. Se se voltarem a cruzar e a reconheceres, não lhe contes esta história que nem ficou para a história. Nem lembrares sequer da cor dos seus olhos, é mau, é de cabo de esquadra. :-)

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  2. A memória está sempre a pregar-nos partidas.
    :)

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    1. a minha é tramada, vai desencantar cenas do arco da velha e depois outras, nem quer saber...

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  3. Bela história, sei como é nos perguntarmos como é que pudemos amar aquela pessoa...não por ter passado a não gostar dela mas simplesmente por ter perdido o encanto de tal maneira que tenho dificuldade em pensar como alguma vez o tive. Contudo, somos capazes de lembrar momentos, como esse que envolve um vestido...

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    1. sim, há coisas que nã se esquecem, ou que perduram, mas numa memória ausente, como se tivesse lido ou visto num filme...

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  4. Gostei da história, de como está contada e da ideia que seja possível esquecer alguém assim especialmente se tiver sido alguém que não era para ser

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    1. nã tinha reflectido muito no "que nã era para ser", mas pode ser essa a explicação para um esquecimento tão intenso

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  5. Que história bonita, admira_meno entanto nunca terem tirado a máscara. Quanto mais não fosse para verem a cor dos olhos, se tinha borbulhas ou sardas. Não que fosse assim tão importante, está visto, mas é a alma, viram?

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