néscio

“um post por dia até ao fim do corona" dia 12...



Talvez seja difícil de acreditar, mas a culpa foi da humanidade. Nós provocamos esta pandemia, nós trouxemos a desgraça a todas as famílias, a ruína da nossa economia. Não vale a pena apontar culpados.  A culpa não é do morcego, nem do pangolim, nem das pessoas que assoam o nariz ao peixe no mercado de Wuhan. A culpa é nossa, de toda a humanidade. Contribuímos de igual forma, eu sou tão culpado como tu que me lês. Não se iludam. Fomos avisados, o planeta está a esgotar-se, a natureza reivindica o que lhe é decepado constantemente. Não temos limites para aquilo que temos, para o que queremos, é uma ambição tola. Mesmo em casa fechados, só pensamos em consumir. Fomos formatados para isso, vão dizer. Sim, mas desde quando é que os outros começaram a pensar por nós? Desde quando é que os nossos sonhos passaram a ser umas férias num destino tropical, trocar de carro de 5 em 5 anos, ter sempre os últimos e mais sofisticados brinquedos? É só isso? O nosso bem estar resume-se a viajar sem nunca olhar, porque diante dos nossos olhos está sempre um telemóvel? Possuir coisas brilhantes, novas, descartar as velhas, isto é barato, manda vir dez. Queremos parecer bonitos, esbeltos, perfeitos para partilhar com o universo. Seguimos a vida de pessoas com quem nunca trocamos um bom dia, sabemos o que comeram ao almoço, que roupa usaram na comunhão dos filhos, que livros não leram durante a quarentena. Cada vez que compramos algo que não necessitávamos mesmo, contribuímos para esta pandemia. Mas é assim que a sociedade existe, é preciso haver procura para haver emprego. É preciso viajar para viver, gerar movimento de pessoas, para que outras pessoas possam trabalhar com esse movimento. Se calhar sou néscio por acreditar que podemos viver de outra forma, que há lugar no mundo para políticas económicas mais brandas. Os recursos são escassos, a nossa capacidade inventiva é infinita, mas parece que teimamos em seguir pelo caminho do anúncio publicitário. Trabalhamos exaustivamente para possuirmos coisas. Coisas que nos fazem crer que são necessárias para a nossa felicidade, para o nosso conforto, para a nossa família sorridente que nunca é alérgica a cães. A nossa vida pode ser boa sem ser perfeita. Não somos personagens de um filme, ou de um conto infantil, ainda menos de um anúncio de horário nobre. 
Só me falta tirar desta culpa uma parte da humanidade a quem peço desculpa. Aquela que talvez seja uma maioria, aquela que para uns terem muito, eles não têm nada, nem aquilo que é indispensável. Para que vos fique ainda mais pesado na consciência, porque a mim também fica, porque na verdade nada fazemos para que estes números mudem, estamos de mãos atadas, porque escrever sobre o amor e lulas é mais fácil. Querem saber quantas crianças com menos de cinco anos morreram no ano passado por infecções intestinais simples? Metade foram só na África subsariana. É preciso mudar. É preciso fazer cedências, escolher que futuro queremos, se não por nós, que façamos pelos nossos filhos. Ou pelos filhos dos outros. 

Comentários

  1. Porra, Manel. Estou aqui a ler-te com um pacote de bolachas ao lado, meia bolacha na mão [e a Bolachita à minha beira] e, por mais estranho que possa parecer, já nem me apetece acabar a bolacha. Vou agarrar-me à Bolachita e respirar um tico fundo, a ver se fico melhor.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Achas que podemos viver com metade daquilo que temos e com o dobro do amor à Bolachita e a todas as outras bolachitas?

      Eliminar
    2. A pergunta não foi para mim, mas respondo na mesma: acho, sim.
      Que post magnífico, Manel. Obrigada.

      Eliminar
    3. eu é que agradeço a simpatia :) obrigado Susana

      Eliminar
    4. Acho sim, que muita gente poderia viver com metade daquilo que tem, eu inclusive. Agora, o dobro do amor à Bolachita, é-me humanamente impossível concretizar tal feito.

      Eliminar
  2. Reencontrei o meu afilhado mailindo quinté, tinha saudades já destes teus escritos "abrolhos", quanta verdade, nada que não saibamos, é certo, mas que teimamos em não querer lembrar. Eu, não sou uma consumista mas, sim, poderia viver com metade do que tenho e ainda me consideraria uma sortuda.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. nã gosto muito de escrever sobre coisas destas... quem sou eu para apontar o dedo...

      Eliminar
  3. Tu revolta-te, desopila, e abre os olhos às gentes. Mas não deixes de escrever sobre a menina Lulinha.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. nunca mais a vi... talvez esteja em quarentena com o noivo

      Eliminar
  4. Toma imediatamente um abraço forte, à gaj@ que pensa d'igual modo!
    (comentário que deixo também a tant@s comentador@s :)

    ResponderEliminar
  5. Tenho a certeza que muita coisa vai mudar, mas não sei se será suficiente para o equilíbrio necessário. E depois há a fraca memória da humanidade. :(

    ResponderEliminar
  6. Sim, podemos viver com metade ou muito menos do que temos, também acho que com isto tudo as nossas vidas vão mudar mas só por um período de tempo. Depois... é capaz de voltar tudo ao mesmo

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. voltando ao mesmo é bom que os "nossos" filhos se habituem a coisas destas...

      Eliminar
  7. Grande Cigano! É isso mesmo, o mundo chegou a este estado caótico, por culpa de todos. Não sei se ainda iremos a tempo de arrepiar caminho e refazer o mal que se provocou, mas se todos pensarem e reagirem como tu, talvez se consiga reerguer uma parte do que se perdeu. Só as vidas dos inocentes, não...

    Um grande abraço, Manel. Sempre soube que eras um homem de grande coração.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. oh Janita, nem coração tenho, o último partiu e nã tinha seguro... gostava de fazer mais, sinto-me muito inútil.

      Eliminar
  8. Concordo com tudo o q escreveu sr Manel e acrescento, de uma outra forma..
    Todos somos um, temos q ser mais puros de coração.
    Espero q se encontre bem. Os meus melhores cumprimentos. :)

    ResponderEliminar

Enviar um comentário