Sancho

Não sei porque lhes confessei que também escrevia se não fazia tenção de lhes ler as minhas linhas. Aquilo saiu-me juntamente com outros vácuos e futilidades, rematado o meu fracasso na arte de impressionar donzelas. Depois compreendi que as duas damas só tinham olhos para o belo e jovem cavaleiro que me arrastara até aquela festa de anos, debaixo um falso pretexto. É formoso e atlético, perfumado como um fidalgo, mas de miolo desocupado. Sem a ninguém dar parte da sua intenção, consagrou-me uma manhã antes do dia, seu mui fiel escudeiro, amigo sóbrio que conduz Rocinante, mas também bom álibi junto da sua amada Dulcineia. Calcei-me à porta, lamentando a minha sorte e lancei um adeus na saída. O jovem Quixote ainda protestou, "um cavaleiro nunca foge a uma luta", mas eu estava demasiado velho e exausto para montar um burro. 

Salvador Dali, Don Quixote de la Mancha – the Illustrated Modern Library (1946)



Comentários

  1. Aqueles moinhos onde assobia o vento são coisa para derrubar qualquer um...

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  2. Tu nunca deixes que te armem escudeiro de burro!
    Que tu, ouve bem,!
    És cavaleiro de alazão e não lutas com moinhos de vento,
    mas cantas à luz da lua, belas serenatas.
    Pena as donzelas sofrerem de vistas curtas.
    Mas a sorte há-de virar, e nem vai ser preciso ventinho algum.
    Beijinho afilhado mailindo quinté :-)

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    1. desconfio que sou armado de burro todos os dias :D
      beijos madrinha mai special!

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  3. ando apaixonada pela palabra 'boost!', acho que é disso que precisas, ainda que o teu boost! seja revolta/apagamento7whatever :)

    beijinho

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  4. (vês? eu gosto tanto quando aquele que escreve passa por aqui :)

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  5. Antes te quero aqui, Sancho com pança, do que Cavaleiro Andante... e errante!

    :) Beijos!!

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