orate

 O estranho parou junto ao portão e cumprimentamo-nos. 
-o amigo não é de cá, pois não?
Uma vozinha na minha cabeça disse-me para o ignorar, mas uma outra mais séria e adulta ordenou-me que fosse educado e sorrisse, e explicasse que estava ali já fazia algum tempo. 
-nota-se, continuou o estranho, nunca vi ninguém atar os pés dessa forma. O que está a usar? Tenho um cordel que dura oito anos, está a ver? se quiser um pedaço, tenho-o aqui comigo. 
O homem ultrapassara o portão e estava diante de mim, estendendo uma tira de plástico que ele assegurava ser o melhor para atar os pés de tomate. Agradeci e guardei o cordel no bolso das calças, voltando à enxada. O estranho regressou para junto do portão, e eu pensei que ia desistir, mas os pés de feijão inspiraram-no a dizer que precisavam de estacas mais altas. Acenei que sim com a cabeça e esbocei um esgar que quase podia ser um sorriso, mas que na verdade era apenas uma contracção involuntária dos músculos da cara. 
O estranho acendeu um cigarro e como eu não acrescentava nada à nossa conversa resolveu contar-me a vida dele. Até hoje não consigo entender porquê que as pessoas me contam as suas vidas. É como se elas soubesses, de alguma forma, que me podem inspirar a escrever qualquer coisa. Mesmo que não seja nada de jeito, mas será qualquer coisa, e assim não só eu saberei a vida deles, mas todos aqueles que lerem o que eu escrevo. 
É altura de deixar um aviso. Cortei o pior, mas mesmo assim, o relato do que este sujeito me contou não é aconselhável a pessoas mais sensíveis. Nem sei bem porquê que estou a partilhar isto, mas talvez esteja a enlouquecer. Se são demasiado sensíveis, não leiam além deste parágrafo. Até vou deixar aqui um espacinho extra para não continuarem. 



-estou de baixa. Os médicos não sabem o que tenho. Disse o estranho. Na próxima semana vou fazer um daqueles exames, um tac, está a ver?. Tenho dores de cabeça terríveis e agora comecei a sentir algo estranho no peito, tipo um aperto. 
Limpei o suor que me escorria pela cara e observei o homem com mais atenção, não conseguindo perceber que idade teria. Mas para que entendam a sua história, vou arriscar que não teria menos de vinte, nem mais de trinta e cinco. Pode ser um coágulo, diagnostiquei com falsa empatia. 
-sabe, eu sofri um trauma muito grande. Perdi a minha filha, está a ver?… e não consigo superar. 
A enxada bateu numa pedra tão dura como o meu coração e eu baixei-me para a apanhar, envergonhado por ignorar um ser humano em sofrimento. Lamento, disse, sem saber que mais acrescentar numa situação tão triste e dolorosa, mas a minha expressão foi satisfatória e o estranho prosseguiu por um caminho que eu não estava mesmo a prever. 
- a minha mulher escondeu a gravidez até ao fim, está a ver?. Eu trabalhava de noite e ela de dia e só nos encontrava-mos umas horas, por isso eu não dei por nada. 
Deus do céu, pensei, e talvez até tenha dito em voz alta. Nove meses e não deu por nada. Que relacionamento será este? O homem continuou. Ela sabia que eu queria um rapaz, e como nasceram dois, uma menina e um menino, está a ver?… dizem que a menina tinha objectos no estômago e na… está a ver?
Não queria ouvir o que ele me estava a dizer. Era por demais horrível. Apoiei-me à enxada e abstrai-me na terra negra e revolvida para não perder os sentidos. Que espécie é esta? Que crueldade...
-depois disso comecei a beber, só queria esquecer, está a ver? Sobretudo vodka e cerveja, muita cerveja. Mas depois fui parar ao hospital e deixei. Agora a médica quer que deixe de fumar, o que é mais difícil, está a ver? Mas fumava dois maços, agora fumo dois ou três cigarros por dia e perdi cento e vinte quilos. Disse o homem. Isto já foi há quatro anos. O meu filho adora futebol, está a ver?. Quando chego a casa ele pega na bola e quer ser o Ronaldo. Ele está à minha guarda, está a ver? mas a mãe não dá nada para o sustentar. Já apresentei uma reclamação no tribunal, está a ver? mas dizem que ela não trabalha, por isso não pode pagar. Não trabalha! Eu sei que ela trabalha, eu tenho as minhas fontes. E o meu filho vê coisas, está a ver, e depois faz posições… onde aprendeste isso? Fui fazer queixa dela, mas dizem que as crianças inventam coisas. Pergunto-lhe o que almoçou na escola, está a ver, e ele responde-me sempre, por isso ele não inventa coisas. Conhece o Ronaldo?
Não pessoalmente. 

Comentários

  1. Estou muito feliz com o teu regresso Manel...tanto, mas tanto, que vou tentar não perceber esta narrativa para que nada possa ensombrar a minha alegria.
    Não, não escondo a cabeça na areia feita avestruz... Quero é saborear o prazer da tua volta...sem que nada amargue esse sabor.
    Já te vi lá no meu canto... Falaremos de coisas alegres, por lá.

    Bem-vindo, Cigano.

    Beijos. :)

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    1. Tem sido difícil escrever sobre coisas alegres... sinto que o mundo está assombrado.
      beijos Janita, é bom voltar :)

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  2. Por cada história dessas, terríveis, há inúmeras felizes e milhares normais, a espaços felizes e tristes. Contentemo-nos com a raridade!

    Beijocas repenicadas, Manel das Tempestades :)

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    1. a balança do bom e do mal parece-me desequilibrada... e a raridade está nos finais felizes. Beijos Tutu, espero que estejas bem

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  3. Foi uma coisa horrível e muito triste que te trouxe, mas, quase me atrevo a dizer que, até isso serve, se te impele a escrever e a voltares.

    Beijinho afilhado mai lindo quinté

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    1. saudades dos tempos em que a inspiração nascia das pedras e dos pássaros :)
      beijos super madrinha

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  4. Ser ouvinte é um acto de generosidade e é só o que esperam, ter quem os ouça porque necessitam falar.
    Ouço muitas histórias destas todos os dias no trabalho. Histórias que tenho que interronper, para fazer o que se espera do meu contacto com os outros, atirar questões de dívidas e pagamentos para a conversa... e eles não se importam, desde que eu saiba gerir bem a generosidade com que os ouço.
    Escrevo algumas em cadernos, tiro notas em blocos...raramente as visito e não saberei o que fazer com elas. Já me valeram o suficiente como instrumento de aprendizagem, autoconhecimento...

    ps. Manda frio, Cigano. Não suporto este calor.

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    1. Ó menina, por quem é! não peça frio, peça só mais moderado, sim? Ganhamos as duas, a menina que não gosta de calor e eu que sou filha do sol :-)

      Afilhado, ouve só metade do que a Ó menina, pediu, vá lá :-)

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    2. Espero nã ter exagerado no frio e na chuva, mas os pedidos choviam na secretaria e nã tive mãos a medir :)
      beijos, com sol para os próximos dias

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