quarta-feira, 28 de junho de 2017

Jugoslávia

O homem de meia idade de barriga escorada no polo XL, diz que finalmente me apanhou. Estremeço, mas não reajo. Reconheço nas suas mãos sapudas a minha mochila. O homem parece grande apesar de estar de calções e chinelos de dedo, ou serei eu pequeno, agora que fui apanhado. Já fui apanhado algumas vezes, mesmo nos sonhos. Estamos num parque de campismo e ele apanhou-me, ou julga que me apanhou. Abre a mochila e começa a tirar as provas do crime como se fosse um agente da autoridade. Há objectos que não me pertencem, como aquele relógio antigo da casio. É provável que o tenha roubado. A minha avó tinha um assim. Lembro-me muito bem porque uma vez ela estava doente e fiquei com ela todo o dia sem sair de casa. Era como uma penitência pela doença dela, e ela deu-me uma tarefa muito simples. Vai ao meu quarto e na gaveta de cima tira o relógio e na debaixo, o termómetro. Disse, entrecalando duas tossidelas secas. Entre o quarto e a salinha da televisão não distava assim muito, mas pelo caminho consegui deixar cair o termómetro. Na altura pensei que me tinha corrido bem, pois se tivesse deixado cair o relógio era muito mais grave, não imaginando a fragilidade daquela coisa cheia de mercúrio que chegou às mãos da minha avó sem qualquer utilidade. Deixaste cair o termómetro? Perguntou vermelha de raiva. Mas o relógio estava inteiro, um casio digital de bracelete em plástico, exactamente igual ao que o homem gordo atirara para a pilha de pilhagem que crescera aos seus pés. Nunca mais fiquei a tomar conta da minha avó. Nem nunca mais ela me pediu que executasse tarefas que envolviam o transporte de objectos frágeis. O homem dos calções também estava vermelho de raiva e despenteara a meia dúzia de pelos que lhe corriam pela cabeça, sem encontrar o atlas de tamanho A3, capa forrada a pele verde e letras douradas, muito desactualizado, que tinha misteriosamente sumido durante a sesta. Sabia desde o início que não estava na mochila, mas mesmo assim foi agradável a súbita subida de adrenalina. 



27 comentários:

  1. Vá lá...não te roubaram o carro, mas foi a mochila.:)
    Vale que te proporcionou uma gostosa súbita subida de adrelanina. :)
    Ainda bem que não tinhas lá o atlas desactualizado...
    Em qual desses seis países em que se desmembrou a Jugoslávia estás, Manel?
    :) É só para te enviar um atlas actualizado...

    Beijos!

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    1. a mim nã me roubaram nada :) eu é que às vezes ainda cometo uns delitos, este em sonhos... estou mais a norte, nas margens do báltico :)
      beijos

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  2. Um beijo repenicado de parabéns, rapaz das tempestades! Que a vida te traga ventos de feição!

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  3. Canudo moço...Não fora a tua madrinha e nem sabia que hoje eras pequenino.
    Agora já constas na minha lista de aniversários.
    Tens lá um bolo todo cheio de energia, com um polvo Saltitão... :))

    Um beijinho grande de Parabéns, Manel.
    Que a vida te traga tudo o que mais desejas e mereces.
    Muito Amor, bonança e dias Felizes...:)


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    1. a madrinha é que me lembrou, porque até eu esqueço :)
      obrigado, beijos

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  4. Muitos parabéns Manel, que a vida te sorria sempre. Beijinhos

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  5. Se fosse um Casio a pilhas com bracelete de plástico e máquina calculadora reconhecia-te mérito no transporte assim...

    ps E a bússola? Onde a escondeste?

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    1. reconheço que era um pouco nabo naquele tempo... agora estou melhor, nem preciso de bússola :)

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  6. Mesmo sem Atlas, mesmo não sabendo ao certo onde andas, assim mesmo, chego até TU, afilhado mailindo, e trago, como sempre, o presente de aniversário:

    https://metamorphosis-mussitografias.blogspot.pt/2017/06/blog-post.html

    Parabéns afilhado meu, mailindo quinté :-)

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    1. nã mereço a madrinha que tenho :D
      está fantástico, fiquei se queixo caído. muito obrigado pela surpresa. um polvo que salta do bolo, e esta hei?

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    2. Um polvo embeiçadinho pela piscadela da moça, salta do bolo sim ahahahah

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  7. Pois eu já tive vontade de partir um para ver o que acontecia ao mercúrio...de resto a minha inteligência prática é reduzida, por isso sei melhor partir e deixar cair coisas do que arranjá-las. A avó era muito exigente...
    ~CC~

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    1. melhorei bastante as minhas competências, graças à minha avó :)

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  8. Parece que fizeste anos. Há dias. E eu tinha de te dar os parabéns. Pois claro.

    Joyeux anniversaire M. Tempête!

    [Mam'Zelle, em modo Anónimo]

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    1. muito agradecido pela lembrança, Mam'Zelle, em modo anónimo!

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  9. olha eu perita em chegar atrasada a casa das outras pessoas, ler tudo o que já foi escrito, armar-me em sonsa, e deixar escapar baixinho que, termómetros, relógios e mochilas insondáveis, são itens próprios de gente pequena que ao crescer, revela mestria em apresentar letras bem conduzidas. não vou deixar feliz aniversário, pois é muito repetitivo.
    abraço,
    Mia

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    1. até me esqueci que fiz, mas dizem que pro ano há mais :)
      beijo

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  10. acho que já vai sendo horinha de voltares...

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  11. Maneeeeeeeeeeeeel...onde te meteste?

    Se não te apetece escrever, não escrevas...dá-nos música...mas vem!
    Agora não te podes queixar de frio. :)

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