raiz

Voltei a sonhar com ela, tornou-se um tormento, tantos anos de separação, mais do que aqueles que contamos juntos… e não há noite em que não regresse, tão real que nem suspeito que me encontro num sonho, pura ilusão, criação maligna da minha cabeça em busca da autodestruição.
Lembro-me da mesa, parece um anúncio, toalhas brancas esvoaçantes, pessoas perfeitas num ambiente idealizado, luminoso, diria que radioso, mal consigo ver para além do primeiro plano, mas há erva ou então é tinta verde em contraplacado. Um manjar está preparado no jardim, o meu pai junto ao churrasco que não existe, a minha mãe preocupada com os convidados que já chegaram, com jeitos de etiqueta que nunca lhe conheci.
Vai buscar a tua mulher, diz-me, os pais dela já cá estão.
E eu vou, nem cheguei a pousar a mochila, saio e em seguida estou numa casa que sei minha, mas que não reconheço. Questiono-me sobre o que se passa, o que me terá acontecido para não me lembrar do dia de ontem, terá sido a bebida? Nem desconfio dos lapsos de tempo, do caminho que não precisei de percorrer para chegar até aqui, a máquina cose a consciência com um alinhavo.
Lá está ela, em frente ao espelho, vestida com os mesmos tons que a rodeiam, cabeça ligeiramente inclinada apertando uns brincos nas orelhas, não lhe vejo o rosto, não completamente, apenas uma parte, uma ínfima partícula, mas sei que é ela e que me diz sem eu dizer nada, porque não me ocorre dizer nada diante dela.
já estou quase pronta, leva a menina, hoje não sei que tem que não pára de chorar!
Há um berço, um bebé de braços estendidos, pego nela, reconhece-me com um sorriso e eu pergunto-me como é que sei que é minha, aparentemente em voz alta, apesar de estar convencido que não proferi um único som, ao que ela me responde, ainda em frente ao espelho.
claro que é tua, é igualzinha a ti.

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