balanço
Vinte e cinco foi um ano árduo, começou com ventanias e saraivadas fartas, para acabar gelado mas luminoso. Ninguém aprecia o esforço de um deus da chuva, senhor do raio, do trovão e do relâmpago. Parece fácil conjurar do nada uns imponentes e aprumados cumulonimbus, ou fermentar uns arrojados tornados. "Isso é só condensação de vapor de água na troposfera inferior", comentaram as más línguas na rede social StormLink que usamos entre nós, deuses meteorológicos, mais a nível profissional. Só para ficarem com uma ideia de como isto é injusto, o individuo com mais visualizações este ano foi o responsável por fazer aquela erupçãozita no Etna. Qualquer um passa bem com uns fluxos piroclásticos, até dá para aproveitar e fazer um belo de um churrasco. Agora trabalhar com cristais de gelo, baixas pressões, altas voltagens de eletricidade... ninguém reconhece. Algum de vocês se lembra por acaso que o mês de novembro registou um total de precipitação mensal de 202.9 mm, com uma anomalia de 88.8 mm, corresponde a 180% do valor médio? Pois, foi aqui trabalho extra do "je". Alguém reconheceu? claro que não. "Tens de dar menos" foi o que a direção sugeriu quando me queixei que estava no limite, e logo a seguir toca a requisitar uma tempestadizita, vamos lhe chamar "Cláudia"! Lá estava eu outra vez a explicar a toda a gente que não é o género do nome que atribui complexidade à intempérie (reparem como é linda a palavra intempérie, das mais bonitas diria da língua portuguesa).
Já era suficiente mau o meu esforço não ser reconhecido pelo Trono das Estações, ou pelos colegas do Círculo Secundário do Clima, mas não esperava que até o próprio primeiro ministro terminasse o ano com aquele miserável discurso de natal. A culpa é minha, claro, devia ser mais como o Ronaldo. Gostava de ver essa "espécie de pajem" de um "dirigente saudita..." num comboio cheio ainda o sol nem se levantou, e entenda-se que cheio é cheio de pessoas meias adormecidas, zombies das redes, exaustas de trabalho, explorados, que dão o litro todos os dias para receberem aquele mísero reconhecimento de um parco ordenado, porque não devem esperar mais do isso. Moirar e não ser reconhecido. Aceitar que nos digam "dá menos" quando adoras o que fazes, ou "dá mais" quando ninguém te dá nada. Era disso que este "pajem" como lhe chamou Pacheco Pereira e muito bem, precisava de viver. Era assim que também o monte de merda do nosso primeiro ministro também precisava de viver. De um salário que mal dá para pagar o aluguer do tecto, quanto mais de outras regalias, um salário que se esvazia em produtos alimentares, contas de água, luz e gás. Um país que é dos mais pobres da europa, e no entanto, um dos que mais se destacou pelo crescimento.
Portanto, e sem mais delongas, não foi um dos melhores anos, ou se calhar até foi. A minha vida cresceu, é certo, consegui finalmente uma certa independência económica que me permite menos preocupações pessoais, mas o que me rodeia preocupa-me. As premonições que o encruzado exumou no mês de março, assustam-me. Posso estar a ficar um pouco avariado, síndrome velho do restelo, ou ter exagerado na dose naquele fatídico dia. Espero mesmo estar enganado e que o único objetivo daquela experiência tenha sido o colocar um ponto final numa estranha "amizade". Em contrapartida, e porque nem tudo foi mau, travei novas amizades, principalmente com galinhas. Fui "pai" de dois pintainhos, coisa mais linda que já vi, que batizei de Agustina e Alice, em homenagem às grandes escritoras. As más noticias, porque cada boa notícia parece ser sempre precedida por uma má, é que as brassicáceas, mais conhecidas como hortaliças, e as allioideaes (alhos, cebolas e coisas parecidas), são extremamente apreciadas pelas minhas novas amigas e por isso tem sido um problema extra no cultivo das culturas de inverno.
Bom ano a todos. Saúde, Paz e Galinhas.

Sim senhora, belo balanço! Só isso de ter colocado a um pintainho o mesmo nome que dei à minha filha me deixou uma dúvida metafísica. O meu pai colocou-me nome de deusa mas devia ter sido de uma deusa do bom tempo para podermos negociar a quantidade de água vertida a cada outono-inverno. Para 2026 peço-lhe que alinhe a chuva para os 40 graus que nos sufocam em julho e agosto, preferencialmente a centro e a norte. Haja amizades em 2026, aqui na blogueiros e fora dela!
ResponderEliminarNa blogosfera (maldito corrector).
EliminarRaramente uso os seus nomes, basta acenar com algo que se pareça com um recipiente de comida que elas seguem-me. São animais fantásticos.
EliminarDesconheço a existência de deusas do bom tempo :) nalguns sítios talvez porque o tempo era agreste e havia divindades para tornarem a colheita viável. Deméter era uma deusa só para a agricultura, que pouco liga aos meus pedidos. Havia deusas da Primavera, como Eostre ou Ostara, Brígida, Flora... acho que se lhe deram o nome da deusa da caça, teve sorte :)
bom ano!
Felizmente não foi o nome de deusa da caça, até ver, julgo-me incapaz de tal. Acertou em Deméter mas ela tinha muitos outros nomes, achava que era da terra apenas, não da agricultura...agora que sei, vou interceder pelas suas hortaliças... mas também acho adoráveis os pintaínhos...é tudo natureza!
EliminarGrande Deusa cujo nome julgo saber mas que manterei anónimo, Senhora dos campos, Rainha da colheita, peço clemência! Intercederei por Si, oh Divina, que o sol abunde nos seus dias, que a chuva caia apenas nas horas em que se abrigue, que nenhuma nuvem mais carregada atravesse os Seus olhos, que o ameno se faça sentir até nos dias mais quentes! Eu Te saúdo!
EliminarÉs muito a elaborar balanços Manel, parece-me que nada de mal te aconteceu; que bom! Tu mereces o melhor da vida, moço das tempestades amenas. :-)
ResponderEliminarBeijos e Bom 2026.
PS_ Tens de colocar uma rede ao redor das hortaliças, que as maganas das galinhas não obedecem a nada nem a ninguém.
na verdade nada de mal me acontece, porque eu já sou mau que chegue :D
Eliminarjá coloquei as ditas redes, meu anjo, todo o campo parece mais um campo de futebol com balizas do que uma horta :( mas é por uma boa causa, eu sei.
Bom ano Janita, tu também mereces o melhor de tudo, beijos e abraços
fizeste-me rir, rei dos tornados! Feliz Ano para ti e tuas galinhas, todas elas :)
ResponderEliminartambém tenho um galo, mas ainda nã falei dele, estou a guardar para um próximo texto :D fico feliz por te fazer rir
EliminarFeliz ano Ana!
ps como estão as tuas couves?
Só consigo ter couve galega e mesmo assim tive que dedicar as folhas de fora aos caracóis... Eles comem as de fora e eu as de dentro 😊
EliminarEste ano vai se melhor. Vais ver 😁
olha... apareci como anónima... que fixe... soa-me a agente secreta :)
Eliminarpara os caracóis arranjei galinhas, o problema agora são as galinhas :D mas também costuma resultar cascas de ovos bem trituradas, as lesmas e caracóis nã apreciam... tive uma couve que se chama kale e que se deu muito bem, o espaço era pouco e elas cresceram quase um metro, até as galinhas nã terem mais nada e começaram a debicar também a pobre da kale... a ideia era ter deixado grelar e tirar semente, mas nem isso as bichas deixam que aconteça!
Eliminaruma vez pesquisei sobre o modo de reprodução dos caracóis e passei a olhar para eles com outros olhos e a alimentá-los :)))
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