solidão
Tem aparecido quase todos os dias desde que voltou. Senta-se e fica a ver e a falar enquanto trabalho. Muitas vezes já nem ouço o que diz, porque o caudal é de um rio bem largo. Outras vezes sou eu que falo, e depois ele interrompe com um assunto completamente despropositado. Mas até nem me importo que ele interrompa, também não me importo que não preste atenção quando falo, porque ao fim e ao cabo faço o mesmo. Um destes dias interrompeu-se a ele mesmo e cortou o sentido do imenso fluxo de palavras que lhe escorriam pela boca para se lamuriar. "Estou amaldiçoado" disse, "nunca vou ter ninguém". Não consegui dizer nada simpático, talvez porque compreendo que seja difícil alguém aguentar tanta palavra, tanta queixa. Também estou sozinho, no sentido de não ter uma companheira, mas acho que estou bem, pelo menos não me queixo, mas se calhar nunca estive sem ninguém e o problema dele é estar mesmo sozinho. A solidão deve ser assustadora. Acho que nunca a senti. Mesmo e...



